Uma partida - CAPÍTULO PRIMEIRO

Posso dizer o caso, o ano e as pessoas, menos os nomes verdadeiros. Posso ainda dizer a província, que foi a do Rio de Janeiro. Não direi o município nem a denominação da fazenda. Seria exceder as conveniências sem utilidade.

 

Vai longe o ano; era o de 1850. A fazenda era do Coronel X, digamos Xavier. Boa casa de vivenda, muitos escravos, mas pouca ordem, e produção inferior à que devia dar. O feitor, que era bom a princípio, “virou desmazelado”, como dizia o coronel aos amigos, “sem que este acabasse de substituí-lo” como diziam os amigos do coronel. Corriam algumas lendas; sussurrava-se que o fazendeiro devia certas mortes ao feitor, e daí a dependência em que estava dele. Era falso. Xavier não tinha alma assassina, nem sequer vingativa. Era duro de gênio; mas não ia além de algumas ações duras. Isso mesmo parece que afrouxava nos últimos tempos. Talvez tivesse pouca aptidão para dirigir um estabelecimento agrícola; mas os primeiros anos de propriedade desmentiam esta suposição. Foram anos prósperos, de grande trabalho e vivas esperanças. O terceiro ano confirmou algumas destas; mas o quarto foi já decadente, e os restantes vieram, ora melhor, ora pior, sem que a lavoura tornasse ao que fora. Os escravos mortos ou fugidos eram substituídos por pretos importados de contrabando, meias-caras, como se dizia. Os correspondentes da antiga corte adiantavam dinheiro. Xavier não perdeu o crédito.

 

Tinha perto de quarenta anos. Pertencia a uma antiga família agrícola, espalhada pelo Rio de Janeiro, Minas Gerais e S. Paulo. O pai criou-o um pouco à revelia. Já na fazenda, já na capital, aonde ele vinha muitas vezes, fazia tudo que queria e gastava à larga. O pai desejava que ele fosse doutor ou bacharel em direito; mas o filho não quis e não foi nada. Quando o velho morreu deixou-lhe a fazenda em bom estado, dinheiro nas mãos dos correspondentes, muito crédito, ordem e disciplina. Xavier tinha vinte e sete anos. Correu da corte e já achou o pai enterrado. Alguns amigos do velho, que estavam na fazenda, receberam o herdeiro com muitas provas de estima, desejos de perseverança na casa; mas o moço Xavier, ou porque eles acentuassem demasiado a afeição, ou porque se intrigassem uns aos outros, em breve tempo os pôs na rua. Parece que deles é que nasceu mais tarde a lenda das mortes mandadas cometer pelo fazendeiro.

 

Já ficou dito que os dois primeiros anos foram prósperos. Como a prosperidade vinha do tempo do velho, é fácil crer que continuou pelo impulso anterior. É verdade, porém, que Xavier deu todos os seus cuidados à lavoura, e juntou o esforço próprio ao que ela trazia.

 

Os parentes estavam satisfeitos com a conversão do moço. Um deles lançou-lhe uma patente de coronel da Guarda Nacional; e deu-lhe conselho que tomasse para si a influência política do município. Outro, um velho tio mineiro, escreveu-lhe uma carta dizendo que casasse. “É indecente (concluiu a carta), que você viva aí num serralho de crioulas, como se diz por aqui. Case-se; não faltam moças bem educadas e bonitas, com quanto beleza seja prenda dispensável a uma mãe de filhos.”

 

 

 

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