Uma partida - CAPÍTULO II

Quando a carta chegou às mãos do Xavier, estava ele jogando com um viajante que lhe pedira pousada na véspera. Não abriu a carta, não chegou a examinar a letra do sobrescrito; meteu-a no bolso e continuou a jogar. Tinha sido grande jogador, mas havia já dezoito meses que não pegava em cartas. O viajante que ali aparecera, entre outras anedotas que lhe contou, meteu algumas de jogo, e confessou que “puxava orelha da sota”. A ocasião, a vocação e o parceiro abriram o apetite ao jovem coronel, que convidou o hóspede a um divertimento. O hóspede trazia cartas consigo, mas não foram precisas; Xavier, posto que resolvido acabar com o vício, tinha muitos baralhos em casa.

 

Jogaram três dias seguidos. Xavier perdeu dois contos de réis, e despediu o hóspede com as melhores maneiras deste mundo. Sentia a perda; mas o sabor das cartas foi maior.

 

Foi na noite do primeiro daqueles três dias que Xavier leu os conselhos do tio mineiro para que casasse e não os achou maus. No dia seguinte de manhã tornou a pensar no assunto. Quando o hóspede se despediu, a idéia do casamento apoderou-se dele outra vez. Era uma aventura nova, e a vida de Xavier fora dada a tantas, que esta devia namorá-lo. Nenhuma ambição, curiosidade apenas. Pensou em várias moças, fez-se a seleção até que adotou a filha de um fazendeiro de S. Paulo, que ele conhecera, anos passados, com dezessete de idade; devia ir em vinte e não lhe constava que tivesse marido.

 

Ao vê-la, dois meses depois, Xavier estava longe de crer que a mocinha de dezessete anos fosse aquela magnífica moça de vinte. Só mais tarde soube que ela, desde os dezessete anos, ficara namorada dele. Acordos tais são próprios de novelas; nem eu poria isto aqui, se não fora a necessidade. Parecem coisas preparadas, e, entretanto, examinando-as bem, são banais e velhas. Esquecemo-nos de que os novelistas, à força de levarem para o papel os lances e situações da realidade, deram-lhe um aspecto romanesco.

 

Não houve obstáculos ao casamento. O velho tio mineiro foi padrinho de Xavier, e, dentro de pouco, tornava este à fazenda fluminense, acompanhado de D. Paula Xavier, sua consorte. Viagem longa e cansativa; foram naturalmente repousar. Descansemos nós também nesta pontinha de capítulo.

 

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