A inglesinha Barcelos


 


 

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/

 

Publicado originalmente em A Estação, de 31/05/1894 a 30/06/1894.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eram trintonas. Cândida era casada, Joaninha solteira. Antes deste dia de março de 1886, viram-se pela primeira vez em 1874, em casa de uma professora de piano. Quase iguais de feições, que eram miúdas, meãs de estatura, ambas claras, ambas alegres, havia entre elas a diferença dos olhos; os de Cândida eram pretos, os de Joaninha azuis. Esta cor era o encanto da mãe de Joaninha, viúva do Capitão Barcelos, que lhe chamava por isso “a minha inglesa”. — Como vai a sua inglesa? perguntavam-lhe as pessoas que a queriam lisonjear. E a boa senhora ria-se d’alma, agradecia com palavras, com gestos, quase com beijos. Dentro de algum tempo já a moça era conhecida no bairro pela inglesinha Barcelos. O bairro era Catumbi. A viúva possuía ali uma casa, vivia dos aluguéis de outra, do meio soldo do marido e de umas dez apólices.

 

Era mais próspera a situação de Candinha. Filha de um comerciante, conhecido por Chico Fernandes, abastado e trabalhador, casou bem, com um advogado do Norte, que veio para o Rio de Janeiro deputado, deixou a política, ou a política o deixou a ele, e abriu banca de advocacia. Era moço, forte, estudioso: deu um único desgosto ao sogro, foi o de não ser Ministro do Estado. Este era o sonho de Chico Fernandes. Parece que consentiu logo no casamento, justamente com a mira em vir a ser “sogro do governo”, como ele mesmo dizia, brincando, no tempo em que o genro era deputado. Mas o governo mudou de família, e o Chico Fernandes não se consolou. A filha é o que o consolou dando-lhe um neto.

 

Mas, como ia dizendo, eram trintonas, agora que se encontraram, em março de 1886, em um armarinho da Rua do Ouvidor. Perdoai a banalidade do encontro e do lugar; não vos hei de inventar um palácio de Armida, nem a própria Armida. Há de ser um armarinho, porque não foi em outra parte, nem na praia de Icaraí, nem no salão do Cassino, nem no lugar mais pitoresco da Tijuca. Nem esta história é de invenção romântica; é real e prosaica. Não se viam as duas desde quatro anos. Antes disso já poucas vezes se encontravam, e de relance. A hora, porém, a boa disposição de ambas, a conversação longa entre duas caixas de lã, o desejo que a amiga casada sentia de mostrar o filhinho de três anos à amiga solteira, tudo contribuiu para apertar um pouco os laços frouxos da amizade antiga, e a viúva prometeu que iria com a filha fazer uma visita a Candinha, no Flamengo.

 

Não esqueçamos um motivo mais, secreto e quase imperceptível, um véu tênue de tristeza que cobria o rosto de Joaninha. Tristeza é muito; fadiga, talvez, certa fadiga de espírito. A fala da moça, que era outrora tão viva e precipitada, saía-lhe agora arrastada e frouxa. O riso não era descomposto como dantes, nem o lugar o permitia. Candinha lançou o olhar interrogativo ao vestido da amiga; era novo, bem-feito. Os cabelos estavam penteados com cuidado. Os olhos não tinham perdido a cor nem a graça.

 

— Adeus, inglesinha Barcelos — disse Candinha ao despedir-se dela. Fica assentado: vão lá um destes dias. Por que não vão jantar? Vão jantar domingo. Vão; domingo jantamos cedo, vão cedo.

 

E na rua, consigo:

 

— Parece que tem alguma coisa, está meio triste. Realmente solteira ainda; mas pode ser... quem sabe? Aquele costume de namorar a torto e a direito... Não é já o que era; mas ainda é simpática. Quando me casei, estava com o décimo namorado.

 

Disse ainda outras coisas esta senhora: mas perderam-se nos abismos do espírito, em lugar de onde não posso ir arrancá-las. Contentemo-nos do que aí fica; provavelmente é o mais interessante. Já não é pouco saber que a inglesinha Barcelos, quando a outra casou, e casou aos vinte e cinco anos, ia no décimo namorado. Enganava-se a amiga: não sabia de dois, anteriores ao primeiro encontro na casa da professora. Mas os dez conhecera-os bem; lembrava-se ainda do nome de alguns, um Alfredo Ramos, um Vasconcelos, parece que um Tosta, Lulu Tosta ou coisa assim.

 

Vasconcelos foi o primeiro da dezena. Era estudante, morava na vizinhança. Começou o namoro em dia de chuva, passando ele pela calçada fronteira, com as calças arregaçadas. Joaninha olhava para ele; Vasconcelos, petulante e vaidoso, cuidou que eram olhos de riso, e riso de escárnio, e ia fazer alguma travessura de rapaz, quando reparou que eram olhos de convite. Nada mais expressivo que o gesto de Joaninha brincando com a ventarola. Travou-se o namoro; durou poucos meses, porque vieram as férias, e o estudante voltou para a casa do pai, na roça.

 

Joaninha não sentiu a ausência, nem deu por ela senão alguns dias depois. Já então iniciara outro namoro com um tal Alfredo Ramos. Este, que era namorador de profissão, não tinha outro ofício; mas se uma bonita figura supre os meios ordinários da existência, ele podia tê-los ordinários e extraordinários. Bem-feito, bem vestido, teso de corpo, galhardo no passo, era de enfeitiçar uma moça de dezoito anos. Joaninha deixou-se ir. A princípio, os encontros eram adventícios; mais tarde, ele começou a passar pela casa a horas regulares, chovesse ou não. Joaninha, não menos pontual, vivia para aqueles minutos, se esse verbo não é excessivo; parece que é excessivo. Tanto não vivia, que desde que Alfredo Ramos entrou a afrouxar ela afrouxou também, e um dia, por simples esquecimento, deixou de esperá-lo à janela.

 

Ele não tornou a passar, nem nesse, nem nos dias seguintes. Ela pensou em outra coisa. Um ano depois, viu-o fardado de capitão da Guarda Nacional. Se pudesse atraí-lo com os olhos, tê-lo-ia feito; mas o capitão, não menos galhardo agora que dantes, cuidava só em puxar a companhia, passo firme, espada nua.

 

O caso do Tosta foi mais longo, mas teve igual desenlace. Começou no teatro e acabou... Não acabou; não se pode dizer que acabasse. Viam-se menos, cada vez menos, de longe em longe; esqueciam-se um do outro, mas tornavam a lembrar-se quando se encontravam, e reatavam o namoro. Nos intervalos, a inglesinha Barcelos não esteve parada, e a fim de não perder o tempo nem o costume, pegou alguns namoros adventícios. Um dia, falando-se no Tosta, advertiu que não o via desde muito. Indagou, soube que tinha ido casar em S. Paulo.

 

Não sentiu a moça. Era então a vez de um Américo, recentemente formado em medicina, que queria casar à pressa para inspirar mais confiança às enfermas. Essa pressa os perdeu a ele e a ela. Joaninha não gostava de hábitos cesarianos, chegar, ver e vencer. O namoro havia de ir demorado, muito epistolar, feito de esperas, de olhos quebrados, de ventarolas, de apertos de mão. Quase que, para esta moça, o melhor da festa era esperar por ela. O jovem médico, urgido pela idéia de constituir família, virou de bordo, e foi a outros mares. A nossa Dido carioca viu partir o fugitivo Enéas, mas não seguiu o exemplo da outra; a espada a que recorreu não foi para se matar, mas para se consolar, e não foi espada, mas espadim. Viu um aspirante de marinha que lhe levou a alegria aos olhos.

 

Chamava-se este novo namorado Pimentel, era mocinho naturalmente, e tinha o aspecto gracioso e fino. Joaninha ficou fora de si. Um aspirante! Derreteu-se toda, para falar como uma das suas melhores amigas; mas o namoro durou pouco mais de dois meses. O rapaz saiu em viagem de instrução, e esqueceu a mala, em que estava um retratinho dela. Hoje é capitão de fragata, casado, e, se lhe falarem na inglesinha Barcelos, é provável que não a conheça. Tinha namorado tantas!

 

Por muitos dias e semanas guardou Joaninha a memória do aspirante. Tinha esperanças de que ele viria, ainda que tarde, e a procuraria logo. Esperou cartas; escreveu algumas para lhe mandar, quando soubesse que sobrescrito lhes devia pôr. Conquanto fosse namorando alguns rapazes de passagem, não esquecia o aspirante; este era o orago da igreja, embora houvesse altares para outros santos. Os santos é que eram menos fixos; recebiam duas rezas, quatro suspiros, uma vela acesa, e iam a outra freguesia. Não importa; Joaninha consolava-se de um com outro, e de todos com o aspirante. Mas o aspirante voltara e não tornou a buscar a moça.

 

Um dia (dois anos passados), viu ela um guarda-marinha na Rua do Ouvidor; era ele. Teve um estremeção de alegria; logo depois empalideceu quando reparou que o belo guarda-marinha disfarçadamente desviava os olhos. Nesse dia parece que a inglesinha Barcelos verteu uma lágrima, mas foi de raiva, e não na rua, mas em casa, pensando no biltre. Biltre, foi o nome que lhe deu. A princípio chamava-lhe “delícia da minha alma”.

 

A fama de namoradeira estava fundada. Já todo o mundo sabia que a inglesinha namorava a torto e a direito. Quem se queria divertir, deitava-lhe os olhos, e achava parceiros certos. Dois rapazes, por espírito de troça, ajustaram-se para namorá-la ao mesmo tempo, e confiarem um ao outro os progressos da aventura. Chamava-se um Barros, outro Campos. Foram aceitos com alacridade. Diziam tudo um ao outro, os encontros, os gestos, os olhares, por fim vieram as cartas. Eles as liam em casa, comparando-as; e da primeira vez houve grande riso, porque a redação era a mesma, e parecia tirada de algum formulário. As outras já foram diversas; mas não diminuiu o riso, pelos juramentos exclusivos que traziam todas, pelas promessas de fidelidade, de amor eterno, de paixão invencível. Barros cansou depressa; Campos ainda aturou algum tempo, até que foi cuidar de outra coisa.

 

Assim foram passando os anos. Não se contam aqui os namoros de uma hora, de meia, de cinco minutos, de um segundo, na loja ou igreja, na rua, ao dobrar uma esquina, à janela. Era a multidão anônima e passageira, que não deixava lembrança, nem levava saudades, em que não se distinguia uma cara de outra... eram todos. Joaninha chegara aos vinte e sete anos nessa labutação estéril. Viu casar a amiga Candinha, e ficou à espera; outras casaram também.

 

Cuidando que fora inábil e frouxa, tratou de apurar os meios e atirou-se a vários trabalhos. Não podia perder tempo; andou a duas e três amarras. Este processo não rendeu nada; iam chegando os vinte e oito anos. Recolheu-se em si, como um animal que quer dar um bote, e acertou de encontrar um Dr. Lapa, homem quadragenário e magro, que usava luneta muito grande, sem aro, e um botão de pérola no peito da camisa.

 

— Que moça bonita! disse ele uma vez, a outros com quem estava, à porta de uma loja.

 

Joaninha, em vez de corar, voltou-se para ver o autor do cumprimento. A mãe, que também ouvira a palavra, não se zangou com o gesto da filha. Ansiava por vê-la casada. Talvez não saísse tantas vezes com ela, senão por achar o bairro de Catumbi pouco buscado de noivos. Quanto ao Dr. Lapa, vendo um arzinho particular na boca da moça, parecido com riso, ficou lisonjeado e disparou, através do vidro do monóculo, um olhar cheio de admiração e fatuidade. E Joaninha teve arte de voltar a cara, adiante, para falar à mãe, e ver se “o moço” estava olhando. Estava olhando.

 

Fez mais que olhar; acompanhou-a, viu onde morava, passou pela porta nos dias seguintes, e, estando aceito, cuidou de se fazer apresentar à mãe. Não se deu por pretendente; conhecera o pai de Joaninha, e com este motivo pretextou a entrada e a freqüência. Para ela, que sabia o motivo secreto da apresentação, houve uma grande aleluia. Enfim! A mãe, não se lembrando mais do dito, do olhar e da luneta, conheceu todavia que os dois se viam com prazer, e adivinhou que havia alguma coisa. Pedia a Deus que dessa vez fosse verdade. Rezava todas noites a Nossa Senhora para que fizesse feliz a inglesinha. Além da união do casamento, havia a das posses do candidato, que não eram excessivas, mas bastantes para fazer daquele bilhete duas sortes grandes — casamento e dinheiro.

 

Joaninha pôs em jogo o aparelho dos grandes dias. Nunca foi mais belicosa do que então. Olhos, lábios, dedos, todos tinham gestos particulares e expressivos. Os suspiros saíam também. Conhecera a vantagem dos silêncios e das atitudes metade elegantes, metade dolorosas, e os vôos rápidos dos olhos para o céu. Lapa trabalhava de luneta. Quando ele a metia na arcada do olho esquerdo, encarquilhando a cara desse lado, ficava mais desengraçado que sem ela; mas Joaninha, que não procurava um engraçado, mas um marido, não notava a diferença ou agravo, e acudiu à luneta com os seus olhos de vista clara e longa.

 

O pior é que ele não dizia nada; eram só gestos. Nem palavras nem escritos. A verdade é que este Lapa não casara há mais tempo, unicamente pela hesitação, irresolução, dubiedade; encetara alguns namoros, mas parara à porta da igreja, ou por medo, ou por avesso ao acordo matrimonial. Daquela vez achou pessoa tão audaz, que estava disposto ao casamento, ou supôs que estava. Quando ia, porém, a falar ou escrever, vinha o receio de ficar obrigado, e diferia o ato. Prosseguia de luneta. Um dia chegou a começar alguma coisa. Ela tocava ao piano um trecho terno de Donizetti. A mãe ouvia com os olhos fechados; era o modo de sentir melhor a música, dizia ela; a filha acreditava que era o melhor modo de os deixar à vontade. Lapa fez um esforço e disse baixinho:

 

— A senhora é divina ao piano.

 

Joaninha sorriu primeiro, depois ficou séria, e quebrou os olhos para ele, que não continuou. Então, para animá-lo:

 

— Divinas são as santas, disse.

 

— Que é a senhora senão uma santa?

 

— Eu, uma santa?

 

— Uma santa, a mais bela das santas.

 

Joaninha sorriu ainda e pagou o cumprimento com um suspiro. Os dedos foram afrouxando, até não tocarem mais que notas soltas e leves, como traduzindo o devaneio da dona, que trabalhava de olhos.

 

— Uma bela santa! repetia mudamente a luneta.

 

Uma bela santa! repetiram aos ouvidos de Joaninha uns anjos invisíveis, que a impediam de dormir e lhe contavam coisas extraordinárias do céu, onde tudo eram Lapas e tudo lunetas, servindo a uma só e única entidade, o mais formoso dos Lapas, a mais cristalina das lunetas.

 

Como os demais sonhos da moça, este passou após alguns dias de vão trabalho. Joaninha achou-se outra vez sem esperanças. Vistes a longa série deles, sem contar os de poucas horas, os de minutos apenas, a multidão sem nome nem figura. Onde iam os Ramos? Foram com os Vasconcelos e os Tostas, os Pimentéis e os Barros, os Campos e os Lapas.

 

Deu-se então na alma da inglesinha uma crise. Os romances trouxeram-lhe duas idéias extraordinárias, atirar-se a um lago ou meter-se a freira. Freira não podia ser, estando suprimido o noviciado. Agarrou-se ao lago; mas os lagos, que eram grandes, homicidas e secretos nos livros que lhe levavam as horas, não tinham água na cidade. Os de uma chácara que ela costumava visitar, não subiam de dois palmos d’água, Joaninha não viu morte física nem moral; não achou meio de fugir a este mundo, e contentou-se com ele. Da crise, porém, nasceu uma situação moral nova. Joaninha conformou-se com o celibato, abriu mão de esperanças inúteis, compreendeu que estragara a vida por suas próprias mãos.

 

— Acabou-se a inglesinha Barcelos, disse consigo, resoluta.

 

E de fato, a transformação foi completa. Joaninha recolheu-se a si mesma e não quis saber de namoros. Tal foi a mudança que a própria mãe deu por ela, ao cabo de alguns meses. Supôs que ninguém já aparecia; mas em breve reparou que ela própria não saía à porta do castelo para ver se vinha alguém. Ficou triste, o desejo de vê-la casada não chegaria a cumprir-se. Não viu remédio próximo nem remoto; era viver e morrer, e deixá-la neste mundo, entregue aos lances da fortuna.

 

Ninguém mais falou na inglesinha Barcelos. A namoradeira passou de moda. Alguns rapazes ainda lhe deitavam os olhos; a figura da moça não perdera a graça dos dezessete anos, mas nem passava disso, nem ela os animava a mais. Joaninha fez-se devota. Começou a ir à igreja mais vezes que dantes; à missa ou só orar. A mãe não lhe negava nada.

 

— Talvez pense em pegar-se com Deus, dizia ela consigo; há de ser alguma promessa.

 

Foi por esse tempo que lhe apareceu um namorado, o único que verdadeiramente a amou, e queria desposá-la; mas tal foi a sorte da moça, ou o seu desazo, que não chegou a falar-lhe nunca. Era um guarda-livros, Arsênio Caldas, que a encontrou uma vez na Igreja de S. Francisco de Paula, onde fora ouvir uma missa de sétimo dia. Joaninha estava apenas orando. Caldas viu-a ir de altar em altar, ajoelhando-se diante de cada um, e achou-lhe um ar de tristeza que lhe entrou na alma. Os guarda-livros, geralmente, não são romanescos, mas este Caldas era-o, tinha até composto, entre dezesseis e vinte anos, quando era simples ajudante de escrita, alguns versos tristes e lacrimosos, e um breve poema sobre a origem da lua. A lua era uma concha, que perdera a pérola, e todos os meses abria-se toda para receber a pérola; mas a pérola não vinha, porque Deus, que a achara linda, tinha feito dela uma lágrima. Que lágrima? A que ela verteu um dia, por não vê-lo a ele. Que ele e que ela? Ninguém; uma dessas paixões vagas, que atravessam a adolescência, como ensaios de outras mais fixas e concretas. A concepção, entretanto, dava idéia da alma do rapaz, e a imaginação, se não extraordinária, mal se podia crer que viçasse entre o diário e a razão.

 

Com efeito, este Caldas era sentimental. Não era bonito, nem feio, não tinha expressão. Sem relações, tímido, vivia com os livros durante o dia, e à noite ia ao teatro ou a algum bilhar ou botequim. Via passar mulheres; no teatro, não deixava de as esperar no saguão; depois ia tomar chá, dormia e sonhava com elas. Às vezes, tentava algum soneto, celebrando os braços de uma, os olhos de outra, chamando-lhes nomes bonitos, deusas, rainhas, anjos, santas, mas ficava nisso.

 

Contava trinta e um anos, quando sucedeu ver a inglesinha Barcelos na Igreja de S. Francisco. Talvez não fizesse nada, se não fosse a circunstância já dita de vê-la rezar a todos os altares. Imaginou logo, não devoção nem promessa, mas uma alma desesperada e solitária. A situação moral, se tal era, parecia-se com a dele; não foi preciso mais para que se inclinasse à moça, e a acompanhasse até Catumbi. A visão tornou com ele, sentou-se à escrivaninha, aninhou-se entre o deve e o há de haver, como uma rosa caída em moita de ervas bravias. Não é minha esta comparação; é do próprio Caldas, que nessa mesma noite tentou um soneto. A inspiração não acudiu ao chamado, mas a imagem da moça de Catumbi dormiu com ele e acordou com ele.

 

Daí em diante, o pobre Caldas freqüentou o bairro. Ia e vinha, passava muitas vezes, espreitava a hora em que pudesse ver Joaninha, às tardes. Joaninha aparecia à janela; mas, além de não ser já tão assídua como antes, era voluntariamente alheia à menor sombra de homem. Não fitava nenhum; não dava sequer um desses olhares que não custam nada e não deixam nada. Fizera-se uma espécie de freira leiga.

 

— Creio que ela hoje me viu, pensava consigo o guarda-livros, uma tarde, em que ele, como de uso, passara por baixo das janelas, levantando muito a cabeça.

 

A verdade é que ela tinha os olhos na erva que crescia à beira da calçada, e o Caldas, que ia passando, naturalmente entrou no campo da visão da moça; mas tão depressa ela o viu, levantou os olhos e estendeu-os à chaminé da casa fronteira. Caldas, porém, edificou sobre essa probabilidade um mundo de esperanças. Casariam talvez naquele mesmo ano. Não, ainda não; faltavam-lhe meios. Um ano depois. Até lá dar-lhe-iam interesse na casa. A casa era boa e próspera. Vieram cálculos de lucro. A contabilidade deu o braço à imaginação, e disseram muitas coisas bonitas uma à outra; algarismos e suspiros trabalharam em comum, tais como se fossem do mesmo ofício.

 

Mas o olhar não se repetiu naqueles dias próximos, e o desespero entrou na alma do guarda-livros.

 

A situação moral deste agravou-se. Os versos entraram a cair entre as contas, e os dinheiros entrados nos livros da casa mais pareciam sonetos que dinheiro. Não é que o guarda-livros os escriturasse em verso; mas alternava as inspirações com os lançamentos, e o patrão, um dia, foi achar entre duas páginas de um livro um soneto imitado de Bocage. O patrão não conhecia esse poeta nem outro, mas conhecia versos e sabia muito bem que não havia entre os seus devedores nenhum Lírio do céu, lírio caído em terra.

 

Perdoou o caso, mas entrou a observar o empregado. Este, por sua desgraça, ia de mal a pior. Um dia, quando menos esperava, disse-lhe o patrão que procurasse outra casa. Não lhe deu razões; o pobre-diabo, aliás tímido, tinha certo orgulho que lhe não permitiu ficar mais tempo e saiu logo.

 

Não há mau poeta, nem guarda-livros relaxado que não possa amar deveras; nem ruins versos tiraram jamais a sinceridade de um sentimento ou o fizeram menos forte. A paixão deste pobre moço desculpará os seus desazos comerciais e poéticos. Ela o levou por descaminhos inesperados; fê-lo passar crises tristíssimas. Tarde achou um mau emprego. A necessidade fê-lo menos assíduo em Catumbi. Os empréstimos eram poucos e escassos; por muito que ele cortasse a comida (morava com um amigo, por favor), não lhe davam sempre para os colarinhos imaculados, nem as calças são eternas. Mas essas ausências longas não tiveram o condão de abafar ou atenuar um sentimento que, por outro lado, não era alimentado pela moça; novo emprego melhorou um tanto a situação do namorado. Voltou a ir lá mais vezes. Era fim do verão, as tardes tendiam a diminuir, e pouco tempo lhe restaria delas para dar um pulo a Catumbi. Com o inverno cessaram os passeios; Caldas desforrava-se aos domingos.

 

Não me pergunteis se tentou escrever a Joaninha; tentou, mas as cartas ficavam-lhe na algibeira; eram depois reduzidas a verso, para suprir as lacunas da inspiração. Recorreu aos bilhetes misteriosos, nos jornais, com alusões à moça de Catumbi, marcando dia e hora em que ela o veria passar. Joaninha parece que não lia jornais, ou não dava com os bilhetes. Um dia, por acaso, sucedeu achá-la à janela. Sucedeu também que ela sustentasse o olhar dele. Eram velhos costumes, jeitos de outro tempo, que os olhos não haviam perdido; a verdade é que ela não o viu. A ilusão, porém, foi imensa, e o pobre Caldas achou naquele movimento inconsciente da moça uma adesão, um convite, um perdão, quando menos, e do perdão à cumplicidade bem podia não ir mais que um passo.

 

Assim correram dias e dias, semanas e semanas. No fim do ano, Caldas achou a porta fechada. Cuidou que ela se houvesse mudado e indagou pela vizinhança. Soube que não; uma pessoa de amizade ou ainda parenta, levara a família para um sítio no interior.

 

— Por muito tempo?

 

— Foram passar o verão.

 

Caldas esperou que o verão acabasse. O verão não andou mais depressa que de costume; quando começou o outono, Caldas foi um dia ao bairro e achou a porta aberta. Não viu a moça, e achou esquisito que não regressava de lá, como antes, comido de desespero. Pôde ir ao teatro, pôde ir cear. Entrando em casa, recapitulou os longos meses de paixão não correspondida, pensou nas fomes passadas para poder atar uma gravata nova, chegou a recordar alguma coisa parecida com lágrimas. Foram porventura os seus melhores versos. Vexou-se desses, como já se vexara dos outros. Quis voltar a Catumbi, no domingo próximo, mas a história não guardou a causa que impediu esse projeto. Só guardou que ele tornou a ir ao teatro e a cear.

 

Um mês depois, como passasse pela Rua da Quitanda, viu paradas duas senhoras, diante de uma loja de fazendas. Era a inglesinha Barcelos e a mãe. Caldas chegou a parar um pouco adiante; não sentiu o alvoroço antigo, mas gostou de vê-la. Joaninha e a mãe entraram na loja; ele passou pela porta, olhou sem parar e foi adiante. Tinha de estar na praça às duas horas e faltavam cinco minutos. Joaninha não suspeitou sequer que ali passara o único homem a quem não correspondeu, e o único que verdadeiramente a amou.

 

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