Crisálidas - MARIA DUPLESSIS

(A. Dumas Filho)

 

1859

 

Fiz promessa, dizendo-te que um dia

Eu iria pedir-te o meu perdão;

Era dever ir abraçar primeiro

A minha doce e última afeição.

 

E quando ia apagar tanta saudade

Encontrei já fechada a tua porta;

Soube que uma recente sepultura

Muda fechava a tua fronte morta.

 

Soube que, após um longo sofrimento,

Agravara-se a tua enfermidade;

Viva esperança que eu nutria ainda

Despedaçou cruel fatalidade.

 

Vi, apertado de fatais lembranças,

A escada que eu subira tão contente;

E as paredes, herdeiras do passado,

Que vêm falar dos mortos ao vivente.

 

Subi e abri com lágrimas a porta

Que ambos abrimos a chorar um dia;

E evoquei o fantasma da ventura

Que outrora um céu de rosas nos abria

 

Sentei-me à mesa, onde contigo outrora

Em noites belas de verão ceava;

Desses amores plácidos e amenos

Tudo ao meu triste coração falava.

 

Fui ao teu camarim, e vi-o ainda

Brilhar com o esplendor das mesmas cores;

E pousei meu olhar nas porcelanas

Onde morriam inda algumas flores...

 

Vi aberto o piano em que tocavas;

Tua morte o deixou mudo e vazio,

Como deixa o arbusto sem folhagem,

Passando pelo vale, o ardente estio.

 

Tornei a ver o teu sombrio quarto

Onde estava a saudade de outros dias...

Um raio iluminava o leito ao fundo

Onde, rosa de amor, já não dormias.

 

As cortinas abri que te amparavam

Da luz mortiça da manhã, querida,

Para que um raio depusesse um toque

De prazer em tua fronte adormecida.

 

Era ali que, depois da meia-noite,

Tanto amor nós sonhávamos outrora;

E onde até o raiar da madrugada

Ouvíamos bater hora por hora!

 

Então olhavas tu a chama ativa

Correr ali no lar, como a serpente;

É que o sono fugia de teus olhos

Onde já te queimava a febre ardente.

 

Lembras-te agora, nesse mundo novo,

Dos gozos desta vida em que passaste?

Ouves passar, no túmulo em que dormes,

A turba dos festins que acompanhaste?

 

A insônia, como um verme em flor que murcha,

De contínuo essas faces desbotava;

E pronta para amores e banquetes

Conviva e cortesã te preparava.

 

Hoje, Maria, entre virentes flores,

Dormes em doce e plácido abandono;

A tua alma acordou mais bela e pura,

E Deus pagou-te o retardado sono.

 

Pobre mulher! em tua última hora

Só um homem tiveste à cabeceira;

E apenas dous amigos dos de outrora

Foram levar-te à cama derradeira.

 

 

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