Simetria de informações e expectativas - Parte II
Se aceitarmos que em um mercado os agentes são racionais, compreenderemos que estes tomam suas decisões com base no futuro. A história pouco importa nesse caso, basta que conheçam as variáveis que podem interferir nos resultados esperados. Se o resultado não ocorrer, de certo será causado por uma previsão mal feita. Se um agente é capaz de enumerar as variáveis mais importantes para explicar um determinado fenômeno – não é preciso que sejam todas, podem tornar para fins de analise todas as demais como constantes, ceteris paribus – este poderá realizar uma previsão, existe uma área especifica da economia que trata dessa abordagem que é a econometria. O hiato entre a previsão bem feita e o resultado real é pequeno dado a racionalidade de todo o processo.
Se em uma economia todos os agentes são racionais, sejam os consumidores, produtores, trabalhadores, famílias e etc., basta que haja um agente que coordene todo o processo. Este novo agente deverá ser responsável por definir regras para o mercado, fiscalizar se tais regras estão sendo cumpridas e punir aqueles que não as cumprem. Essa seria a função do governo e se limitaria aqui nas interferências econômicas conforme as idéias neoliberais, que ao contrário de que muitos acreditam, não significa uma anarquia econômica. As idéias liberais dos clássicos economistas seguem uma linha mais rígida, os agentes mesmo que hajam por puro egoísmo serão capazes de atuar em pró do bem estar social sem que esse seja seu objetivo especifico.
Torna-se fácil compreender, que havendo a racionalidade, o mercado possui mecanismo auto-regulatório e que a ação intervencionista agravaria qualquer falha que pudesse ser diagnosticada. Os agentes serão capazes de prever com grande perícia os fenômenos econômicos e suas decisões serão voltadas a analises futuras e jamais olharão para o passado. Até mesmo a analise de risco pode ser calculada via probabilidade e a decisão tomada será a melhor possível.
Essas idéias nos permitem compreender melhor como funciona o pensamento neoclássico – não apenas, mas fundamentalmente – e como se processa as idéias que recheiam os manuais de micro e macroeconomia. O bom investigador da teoria dos jogos aplicada a economia perceberá que tais resultados só são possíveis porque há entre os jogadores simetria de informação.
Não podemos admitir, no entanto, que os seguidores desse pensamento são ingênuos, “... uma minoria a parte, nostálgica, romântica, e condescendente.” (Galbraith, 1988, p.18). Primeiro porque supõe que os agentes são capazes de reduzir os riscos causados por essa desproporção de informações, coisa que o Estado não é capaz de fazer de maneira satisfatória, quando não piora a situação. Segundo, porque o próprio mercado se encarrega de reduzir essa assimetria de forma natural e mesmo coexistindo essa falha de mercado, os fundamentos que baseiam o equilíbrio de mercado não se tornam totalmente comprometidos.
Mas em um mercado onde existem tais falhas, quando por vezes essas falhas são mais presentes que a própria normalidade, como é possível aceitar os dogmas convencionais e compreender os resultados previstos, sabendo que os resultados podem variar em grande escala da previsão realizada?
Não conhecer algo gera incerteza, e isso é valido para qualquer agente, seja o governo, o capitalista, o trabalhador, o produtor ou o consumidor. Dentro dos conceitos da própria teoria instituída, os agentes querem sempre maximizar sua satisfação, de forma indireta, maximizar aquilo que lhe proporcione maior satisfação. Mas nesse processo, se um dos agentes não possui informações completas – que não significa que o agente precise saber de tudo como um clarividente – acrescentará uma minimização nesse processo. Como aclamado, os agentes tendem a maximizar a satisfação e minimizar a dor, para um empresário a satisfação, ou aquilo que lhe proporciona satisfação é o lucro, a dor é o custo de produção, quando admitimos que haja assimetria é necessário minimizar também a incerteza.
O fato é que incerteza nesse caso, não pode ser entendida como o risco que os manuais de microeconomia apresentam, aqueles que são associados a uma probabilidade. Um meteorologista prevê uma manha de sol, com 30% de possibilidade de chuva, essa informação é importante para o vendedor de picolé da praia. O risco, de certa forma, pode ser calculado. Pode haver erros de previsão, mas é muito mais confortável pro vendedor ter a idéia de qual é o risco de chuva, do que não possuir informação alguma.
Mas se a previsão mostrar que amanha a probabilidade de chuva é de 0%, isso com certeza animaria o vendedor que pensaria racionalmente da seguinte forma: Por que não empregar mais uma pessoa para vender picolé, dado que se houver muito sol, muitas pessoas irão à praia? Se pensarmos que toda oferta de picolé será absorvida, certamente o vendedor obterá grandes lucros. Mas e se acaso todos os vendedores pensarem da mesma forma, caso a demanda seja menor que a oferta? Provavelmente um grande erro foi cometido, a redução de preço não é uma reação saudável, já que nesse caso os lucros serão reduzidos a um numero menor que seria auferido se cada mantivesse o volume de oferta.
A indagação para o problema acima é simples, veja como se estabeleceu o equilíbrio, a oferta reduz ao nível da demanda – apesar de estarmos tratando de um sistema limitado, onde não se pode perceber a determinação da oferta sobre o nível de equilíbrio. Acontece que o equilíbrio de mercado nem sempre é bom para todo mundo.
Imaginemos o mesmo problema, se todos os vendedores possuem esse entendimento, e no dia seguinte mantiverem seu nível de oferta, certamente se a demanda for alta o volume de receita de cada vendedor aumentará. Mas o que impede que um deles reduza os preços ou coloque mais vendedor a despeito das decisões dos outros? E o que aconteceria se as pessoas não quisessem mais picolé? E se uma grande fabrica instalasse uma grande sorveteria do outro lado da rua?



















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