Resenha de Organização Industrial
Diante do vasto campo em que se pode explorar, a ciência econômica possui espaço para diversos enfrentamentos de idéias, há possibilidades de explicar um mesmo fenômeno de inúmeras maneiras. A palavra de ordem é depende. Depende de que lado do jogo está, de qual formação o cientista obteve, de qual realidade este está inserido.
A formação acadêmica define que tipo de cientista é formado e de uma mesma academia pode resultar profissionais completamente antagônicos, mas é inegável que há um papel tendencioso nas informações transmitidas pelo corpo docente. O que de modo algum invalida todo o aprendizado.
As disciplinas são partes dessa formação, mas não se restringe as mesmas, o bom aluno não se limita ao aprendizado de dentro da sala de aula, é curioso, lê muito e pergunta muito. Apesar de serem tratadas como fragmentos, as disciplinas se completam e constroem toda lógica do curso. O que em econometria pode ser relacionado com economia política? Para que estudar microeconomia se a minha preferência é por organização industrial? O papel do cientista é investigar e uma boa investigação requer conhecimento de muitas áreas, inclusive das que não nos agradam.
No decorrer do curso, através de diversas disciplinas, entramos em contato na maior parte das vezes com a teoria neoclássica. Conhecemos muito superficialmente as idéias das doutrinas alternativas, mas ainda sim nosso curso é considerado muito heterodoxo. Em microeconomia exercitamos um trabalho árduo de abstração da realidade para entender os inúmeros modelos propostos.
A teoria neoclássica lança diversos pressupostos para a compreensão do funcionamento de mercado, o objetivo é buscar na explicação de concorrência perfeita que o mercado age de forma autônoma e que sempre o equilíbrio é alcançado. Marshall foi o grande contribuidor dessa teoria, a formulação das idéias sobre os custos de produção e seus conceitos marginais, o conceito de firma representativa, atomismo, equilíbrio parcial e inclusão do uso da matemática aplicada e do fator tempo nas análises econômicas entre tantas outras definições definiram o corpo da teoria tradicional.
Diz-se que ao aceitar tais pressupostos a teoria é incontestável. No entanto, Sraffa trabalhou algumas questões envolvendo tais conceitos, destacou inconsistência do trabalho de Marshall, observando as idéias de escala e de concorrência perfeita. Apesar de ser mencionada como uma critica interna, a teoria foi posta à prova e abriu caminho para críticas, enquanto alguns abandonaram a teoria marshalliana em favor da Teoria de Equilíbrio Geral outros se inspiraram para a construção da idéia de concorrência imperfeita, como foi o caso de Joan Robinson.
Desse ponto se constrói a estrutura da Organização Industrial, que é o trabalho de desenvolver uma teoria de preços alternativa. Apesar de ser considerada um ramo heterodoxo, existem trabalhos de caráter neoclássico dentro de O.I.
Coincidentemente no mesmo ano que a Joan Robinson, Edward Hastings Chamberlin divulga seu trabalho apresentando a idéia de concorrência imperfeita. Dentre outras coisas destaca o papel da diferenciação do produto, do poder de mercado por parte dos produtores mesmo em ambientes com muitas firmas. Destaca a diferença entre demanda de mercado e individual da firma, sensivelmente percebe-se nesse modelo que as empresas não são iguais e podem conseguir margens de lucros diferentes, dados custos e demanda diferenciados.
Joan Robinson, como já mencionado, tratou da formulação das idéias de concorrência imperfeita. Em seu trabalho, procura distinguir o conceito de indústria e mercado, refuta a lógica de lucro zero no longo prazo e completa com a afirmação de que a firma não possui ferramentas para maximizar seus lucros. Os dois objetivos principais dos empresários são sobreviver e crescer e para isso precisam auferir lucros sem esquecer do futuro e dos consumidores. Não há limites para a diversificação e o crescimento, a taxa de crescimento é limitada pela imperfeição do mercado. O trabalho de Robinson conclui que é inviável aceitar os conceitos neoclássicos para se compreender a realidade, outra conclusão interessante, é que a evolução natural em um mercado livre é que este de concorrência perfeita torne-se uma estrutura de monopólio.
Vários comentários sobre a elaboração da idéia de concorrência imperfeita concluem que não houve a partir desse ponto alguma revolução e de certa forma desmerecem seus trabalhos. Mas a verdade que tais contestações da tradicional teoria permitiram novas críticas e que modelos bem trabalhados pudessem ser apresentados.
Uma pesquisa com 38 empresas foi feita por Hall e Hitch para compreender como os empresários definem preços e quantidade, uma pesquisa que merece diversas críticas devido ao modo como é executada. Concluem que o preço é definido a partir da aferição dos custos, o empresário calcula o custo direto, um percentual do custo indireto e uma margem para cada unidade de bem produzido. As firmas não necessariamente estão no tamanho ótimo, os empresários não conhecem a proporções eficientes dos fatores de produção e sua própria curva de demanda, o oligopólio é o caso mais comum no mercado.
Kalecki não possuía uma teoria de preços especificamente, mas contribuiu de maneira interessante com seu trabalho a esse respeito. Mostra que há condições diferentes de oferta, preços rígidos e flexíveis – alternando com a idéia de produção rígida e flexível. O preço é determinado pelo custo e adicionado a uma margem, essa ultima depende do grau de monopólio em que o mercado se encontra. O grau de monopólio é um elemento amplamente estudado por Kalecki, onde busca suas determinações e implicações e como se estabelece a distribuição de renda. Uma de suas frases ficou muito famosa: “Os trabalhadores gastam o que ganham e os capitalistas ganham o que gastam.”. Apesar de ser conclusões mais macroeconômicas, esses resultados influenciam a dinâmica das firmas.
J. Bain é um dos autores de maior expressão da teoria de organização industrial, agrega conhecimentos sobre condições de entrada, barreiras à entrada, concorrência potencial, vantagens das firmas estabelecidas, determinantes e implicações das barreiras à entrada.
O trabalho de Sylos Labini colocou-se criticamente aos conceitos da teoria tradicional, o autor buscou analisar a estrutura de mercado e apresentou os conceitos de preço mínimo, de exclusão e de expulsão, que ajuda a compreender a dinâmica de entrada e saída das firmas, por conseqüência como esse movimento interfere no grau de concentração do mercado. Entre outras conclusões define que há uma plurideterminação do equilíbrio e que a historia importa para a compreensão dos fenômenos da indústria.
Steindl debate implacavelmente com o conceito de firmas representativas, defende que existe capacidade excedente mesmo no equilíbrio e que essa é devido a planejamento, essa capacidade determina as margens de lucro. A decisão de preço é definida como estratégia de longo prazo, além de ser instrumento de competição não apenas com as firmas estabelecidas, mas com as potenciais entrantes. Introduz o conceito de diferenciais de custo, que irá explicar o papel da tecnologia e como se formam as lideranças no mercado e a concentração de mercado.
M.L.Possas considera o papel das inovações e difusão das mesmas como fundamental para explicar a liderança e concentração de mercado, sem mencionar na determinação de margens de lucro. Esse autor apresenta diversos tipos possíveis de arranjo estrutural e acentua as diferenças entre firmas.
Como graduando percebo que não é muito difícil simpatizar com a Organização Industrial, principalmente se a teoria tradicional não for compreendida de maneira satisfatória. Se por um lado a teoria neoclássica é muito bem formalizada, a alternativa é por vezes muito fraca, sendo que alguns autores deixam a desejar na estruturação de seus modelos. Por outro lado, a alternativa possui um caráter empírico interessante, que ajuda a compreender as relações estabelecidas e encontrar aplicações práticas, ao contrário da tradicional visão, que é muito teórica e de pouca praticidade.
Mas a teoria de Organização Industrial não está finalizada, os autores aqui mencionados contribuíram de forma independente para a busca de uma teoria de preços única, há divergências dentro da própria linha. Mas as discussões ainda continuam e os embates com a teoria neoclássica também. Exemplo disso são as idéias dos neoschumpeterianos.
Basicamente os neoschumpeterianos possuem inovação como palavra chave. São as inovações que estabelecem o desenvolvimento de uma economia, representam o diferenciador entre firmas. Inovar passa ser o instrumento de não apenas crescimento da firma, mas também de sobrevivência.
A teoria de Custos de Transações é relativamente recente e também é prova que os modelos alternativos estão em pleno desenvolvimento. A TCT critica a “caixa preta neoclássica”, onde se adiciona os insumos ao processo de produção e produto é o resultado simples. Essa teoria mostra que há racionalidade limitada, incerteza entre outros elementos que distorcem os resultados apresentados pela corrente tradicional.
Mas assim como a O.I. não cessou seus trabalhos, a teoria neoclássica mantém viva sua hegemonia e apresenta a Teoria dos Mercados Contestáveis. Mercados com livre entrada e saída, monopolistas ou grupo de monopolistas se comportam idênticos às empresas que se encontram em concorrência perfeita. Há desvios em relação às condições ideais, ou seja, falha de mercado.
São plausíveis, até onde limita meu conhecimento, as argumentações da O.I., ao contrário do que observo dos ensinamentos da microeconomia, essa é a razão de perceber na Organização Industrial a linha possível de pesquisa enquanto profissional.



















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