REDAÇÃO

Descrição, Narração e Dissertação.

 

Resumo

               Trabalho elaborado para melhor compreensão e definição das características das Redações: Descritivas, Narrativas e Dissertativas. 

               Apresentamos os tipos de redações abordando os aspectos definidos de cada uma, com exemplos bem explicativos, inclusive com quadro de esquema comparativo do conteúdo específico, faculdade humana, trabalho de composição e formas de: descrição, narração e dissertação.

 

                                               DESCRIÇÃO 

                                               Vivemos em dois mundos: o dos acontecimentos que nos chega através dos sentidos (mundo real) e o das informações que nos chegam indiretamente através dos meios de comunicação (mundo verbal). A relação entre esses mundos é a mesma relação que existe entre o território e o mapa que o representa. O mesmo acontece com a linguagem. Por meio de relatos imaginários, podemos inventar realidades que nada têm a ver com o mundo concreto, isto é, a linguagem representa a realidade, mas não é a própria realidade.

                                               Vamos comparar agora dois exemplos de representação da realidade:

 

1 -

2- ... era um animal felino, de pelo preto, expressivos olhos verdes, grandes bigodes, um bichinho de estimação. 

                                               No primeiro caso, o ser representado foi reconhecido de maneira imediata. No segundo, foi-se identificando o ser aos poucos, não foi uma identificação imediata.

                                               Descrever é representar, por meio de palavras, as características de seres e objetos percebidos através dos sentidos. O objetivo da descrição é transmitir ao leitor uma imagem daquilo que observamos. É como compor um retrato por meio de palavras, fazendo com que o leitor perceba as características marcantes do ser que estamos descrevendo e de modo a não confundi-lo com nenhum outro.

                                               Ao observarmos um objeto e a descrição do mesmo, percebemos que a imagem transmitida pelo desenho é imediata e global, enquanto que na descrição, somente após a leitura total do texto é que se tem a idéia global do objeto.

                                               Se tivermos em nossa frente duas cadeiras diferentes, poderemos identificá-las através de um só substantivo: cadeira. Essa palavra apenas identifica o objeto, mas não o descreve, pois a descrição consiste na enumeração de caracteres próprios dos seres animados ou inanimados, coisas, cenários, ambientes, costumes sociais, ruídos, odores, sabores ou impressões táteis.

A descrição não se confunde com a definição. A definição é uma forma verbal através da qual se exprime a essência de uma coisa. As coisas, individualmente não admitem definição. Quando definimos, estando tratando de classes, espécies. Quando descrevemos, detalhamos indivíduos de uma mesma espécie. Portanto, a definição é generalizante e a descrição, particularizante.

 

                DEFINIÇÃO

              DESCRIÇÃO

Cadeira - peça de mobiliário que consiste num assento com costas, e, às vezes, com braços, dobrável ou não, para uma pessoa.

Cadeira - De imbuia, com assento estofado, quatro pernas, duas travessas nas costas e envernizada.

Navio - embarcação de grande porte.

Navio - tinha o casco preto, era baixo, um ar de navio fantasma, muito vagaroso.

Mulher - pessoas do sexo feminino, após a puberdade.

Mulher - Não era bonita, loira, nariz arrebitado, não muito alta, gorda.

 

 

Todos os seres existentes no universo físico, psicológico ou imaginário podem ser descritos.

                                            mundo físico - Kika era uma simpática dash-hound, de olhos castanhos e pelo brilhante.

                                           mundo psicológico - A bondade era morna e leve, cheirava a carne crua guardada há muito tempo. (Clarice Lispector)

                                           mundo imaginário - Eu sou a Moça Fantasma que espera na rua do Chumbo o carro da madrugada.

                                          Eu sou branca e longa e fria, a minha carne é um suspiro na madrugada da serra.(C D de Andrade)

 

Desse modo também é possível descrever pessoas e personagens, física e psicologicamente:

          Física  - fornece características exteriores, ligadas aos traços físicos do personagem: altura, cor dos olhos, cabelo, forma do rosto, do nariz, da boca, porte, trajes. Exemplo: Sua pele era muito branca, os olhos azuis, bochechas rosadas. Estatura mediana, magra. Parecia um anjo. (pessoa)

                                          Nina era uma cachorra beagle, com as três cores básicas da raça: preto, amarelo e branco. Orelhas compridas, pelo curto, rabo com a ponta branca, patas brancas e grandes olhos castanhos. (animal)

                                          Aquele era o carro dos seus sonhos: conversível, prateado, rodas de magnésio, vidros ray-ban, rádio, direção esportiva, bancos de couro. (ser inanimado)

                                            Psicológica - Apresenta o modo de ser do personagem, seus hábitos, atitudes e personalidade, características interiores.  Exemplo: Era sonhadora. Desejava sempre o impossível e recusava-se a ver a realidade. (pessoa)

                                         Nina era meio invocada. Não gostava nada de estranhos, latia feita louca para os pardais e não gostava nada que lhe ficassem apertando. Era meio fleugmática, não negando sua raça inglesa. (animal)

 

                                         O carro era como seu dono: arrojado, destemido, bonito, não tinha medo das curvas, muito menos das retas. (ser inanimado)

 

                                         Conforme o grau de profundidade, os personagens podem ser agrupados em duas classes:

 

1     - personagens esféricas - são aqueles cujo comportamento e atitudes vão evoluindo no decorrer da narrativa. São mais comuns em romances.

 

2     - personagens planas - apresentam comportamento linear, isto é, sem alterações do início ao fim da narrativa. Possuem uma única qualidade ou um único defeito. São encontradas em contos e novelas. O tipo origina-se a partir da personagem plana; possui uma ou mais características marcantes que levam o leitor a identificá-la imediatamente. Um exagero em suas características torna o tipo uma caricatura.

 

                                               O autor de uma descrição é um indivíduo que observa qualquer segmento da realidade e tenta reproduzi-lo através de suas palavras. O ponto de vista pode ser filtrado de acordo com o autor e o enfoque pode ser objetivo (denotativo) ou subjetivo (conotativo).

                                            enfoque objetivo  - Na descrição objetiva, o autor reproduz a realidade como a vê. Detém-se na forma, no volume, na dimensão, no tamanho, na cor, no cheiro.  Exemplo: Ele tem uma estrutura de madeira, recoberta de espuma. Sobre a espuma há um tecido grosso. Têm assento para quatro pessoas, encosto e dois braços. É o sofá da minha sala.

                                            enfoque subjetivo - A realidade descrita não é apenas observada pelo autor, é também sentida. O objeto descrito apresenta-se transfigurado de acordo com a sensibilidade de quem o descreve. O autor procura transmitir a impressão, a emoção que a realidade lhe causa. São suas características:

a-          visão parcial, subjetiva e qualitativa da realidade;

b-          perspectiva artística, literária;

c- linguagem figurada (conotativa);

d- substantivos abstratos e adjetivos antepostos.

 

                                       Exemplo: O sujeitão, que parecia um carro de boi cruzando com trem de ferro, já entrou soltando fogo pela folga do dente de ouro.(José Cândido de Carvalho)

                                       Stela era espigada, dum moreno fechado, muito fina de corpo. Tinha as pernas e os braços muito longos e uma voz ligeiramente rouca. (Marques Rebelo)

Existe um tipo especial de descrição objetiva: a descrição técnica, que recria um objeto utilizando uma linguagem científica, precisa. Esse tipo de texto é utilizado para descrever aparelhos, peças que compõem aparelhos, funcionamento de experiências, mecanismos. Destaca não só os elementos essenciais do objeto de modo a não confundi-lo com outro, como também suas funções mais importantes. Devem ser usadas palavras que não apresentem dúvidas de interpretação e frases que transmitam de modo inequívoco, as informações desejadas. Exemplo:

Descrição técnica de óculos: instrumento com lentes que ampliam os objetos distantes ou perto do observador e que lhes permitem uma visão nítida dos mesmos. (Douglas Tufano)

                                               Há também a descrição técnica de processo, a exposição narrativa, cujo objetivo é mostrar os passos de um procedimento ou o funcionamento de um aparelho e apresenta as seguintes características principais:

1-         exposição em ordem cronológica

2-         objetividade

3-         detalhamento das ações

4-         indicação clara das diferentes fases do processo

5-         ausência de suspense ou expectativa

6-         predominância de orações coordenadas

7-    impessoalidade na exposição

 

Esse tipo de descrição, que envolve também pontos de narração, exige do seu autor um conhecimento aprofundado do assunto e observação apurada. Às vezes é acompanhada de desenhos, mapas, fotos, diagramas, para evitar faltas ou excessos. Descrição de experiências e receitas encaixam-se nesse tipo de produção de texto.

 

                                               1- Exemplo: Torta Corrupta

Ingredientes

3 xícaras de chá de caixa dois

1 copo americanos de desvio de verbas

3 colheres de sopa de por fora

1 colher de sobremesa de suborno

1 bom punhado de tráfico de influência

 

Modo de fazer

Misturar muito bem todos os ingredientes, sovando bem, de modo a obter uma massa lisa e homogênea. Abrir a massa com o rolo da irregularidade dividi-la em duas partes. Coloque uma delas num pirex bem untado com ganância. Rechear com uma boa camada de safadeza, regada com muito cinismo. Cobrir com a outra metade da massa e decorar com os dizeres da Lei de Gérson. Servir com pizzas de todos os tamanhos.

                    

                                      2- Exemplo - Como ir para a praia El Agua em Islã Margarita : tome o carro e vá diretamente à Avenida Bolivar. Ao adentrar nela, siga as placas com a indicação de “Isla Bonita”. Você vai passar pelo Hotel Hilton, que deverá ser o seu ponto de referência para a volta. Ande alguns quilômetros e vai chegar até a cidadezinha de Pampatar. Passe por ela ainda seguindo as indicações de “Isla Bonita”. Ande mais alguns quilômetros e vai chegar à capital da Ilha, na cidadezinha de Assuncion. Atravesse-a e continue pela estrada por mais alguns quilômetros. Logo você vai encontrar uma placa informando: Praia El Água. Não entre nesse primeiro contorno. Ande mais uns dois quilômetros e vai encontrar um outro contorno, com a mesma indicação. Entre aí. Esse é o melhor trecho da praia.

Cada autor, ao descrever, tem um objetivo próprio: representar de maneira científica, com maior exatidão possível ou provocar a emoção no leitor. Por exemplo: uma pessoa quer vender a sua casa. Diz que a casa fica num lugar sossegado, rodeada por altas árvores, muita grama, o preço é baixíssimo. Na cabeça do vendedor (emissor) está a sua casa real, que não é a mesma que está na cabeça do comprador (receptor). O emissor até modifica o ser, com a finalidade de valorizá-lo.

Há também que se levar em conta na descrição, o tipo de receptor a quem se dirige: criança, adulto e por isso, a linguagem dos textos difere bastante. Veja estes dois exemplos:

                                          1-   Cacareco tem uma cara de velho muito feia. Até parece um monstro pré-histórico, tem dois chifres, feitos de pêlos colados bem juntinhos, com os quais defende seu território. Suas orelhonas percebem todos os sons, seu narigão sente todos os cheiros. Mas os olhos, pequenininhos, enxergam muito mal. (Frans Hopp).

                                           2 -Grande mamífero selvagem, da ordem dos ungulados, com um chifre ou dois no focinho. (Aurélio B.Holanda).

 

                                               Os objetos impressionam nossos sentidos com maior intensidade, provocando sensações visuais, auditivas, táteis, olfativas e gustativas, conforme a situação.

                                                         sensações visuais - Domingo festivo. Céu azul, temperatura alta, calor tropical. Grande movimentação, agitação.  Crachás.  TVs, jornais, revistas, fotógrafos, repórteres, comentaristas, cinegrafistas, cabo-men, correspondentes  estrangeiros.  Corre-corre, passa-passa.

                                                         sensações auditivas - Barulho infernal. Motores roncando. A torcida vibrando, pneus cantando, câmbio engatando, carro voando, o tempo se esgotando.  A torcida delirando, a equipe comemorando.  Podium. Hino. 

                                                         sensações táteis - Ao passar a mão pelo cabelo, sentiu uma coisa viscosa, mole. Tinha sido premiada!

                                                         sensações olfativas - Cheiros variados:  perfumes importados, combustível, cachorro-quente, hambúrguer, batata frita e pipoca.

                                                         sensações gustativas  - O ron-ponche tem um sabor adocicado. Percebe-se um gostinho de laranja, abacaxi e no fundo, um toque de rum.

 

                                               Certas descrições obedecem a um plano pré-determinado:

                                            do geral para o particular - A casa ficava situada perto de uma praia. Era cercada de muros altos, um grande jardim, piscina, vários quartos, salas. Tudo para dar conforto à família.

                                            de cima para baixo - O coqueiro possuía folhas em forma de leque, cocos ainda verdes em cachos, tronco alto oco e raízes profundas.

                                            de baixo para cima - Seus pés eram pequenos, proporcionais ao corpo. Braços delgados, rosto oval, cabelos grisalhos.

                                            de dentro para fora - O armário possuía várias prateleiras, nas quais havia copos e xícaras antigos. As portas eram guarnecidas por vidros trabalhados e o seu corpo era da mais pura cerejeira.

                                            de fora para dentro - Era uma caminhonete prata, rodas largas, faróis de milha, traseira rebaixada, bancos reclináveis, som estéreo, direção esportiva.

 

                                               Estes planos não esgotam todas as possibilidades.

                                               Na descrição de ambientes, o autor volta-se para as características do lugar, aonde, os acontecimentos vão se desenrolar. Descrever um lugar é detalhar as características e isso pode ser feito focalizando-se vários aspectos:

                                             quadro parado: “Caminhões e caminhões enfileirados na madrugada, as luzes das ruas ainda acesas, um frio que não era mais de inverno mas de fim de noite, um frio orvalhado misturava-se no ar.”(Lucília Junqueira de Almeida Prado).

 

                                             quadro em movimento: “Da mata vinham trinados de pássaros nas madrugadas de sol. Voavam sobre as árvores as andorinhas de verão. E os bandos de macacos corriam numa doida corrida de “galho em galho”.

                                             ambiente externo - “Nos dias de enchente, quando a maré crescia, nas luas novas, a água verde subia até a figueira gigante“.

                                             ambiente interno - “Uma sala repleta de móveis sobre o piso de linóleo, móveis pesados, de feitio antigo: o enorme console, a mesa negra, a cristaleira, o relógio de pêndulo, alto como um armário, as poltronas fundas. 


 

                                     NARRAÇÃO

 

                                               A narrativa é uma forma de composição na qual há um desenrolar de fatos reais ou imaginários, que envolvem personagens e que ocorrem num tempo e num espaço. Narrar é, pois, representar fatos reais ou fictícios utilizando signos verbais e não verbais.

 

                                  Há alguns tipos de narrativa:

1- uma piada:             Manuel recebeu um telefonema do gerente do banco.

            - Seu Manuel, estou lhe telefonando para avisar que a sua duplicata venceu.

-          E quem pegou em segundo lugar?

2-uma notícia de jornal: “A poda indiscriminada de árvores em algumas localidades de Jaú, durante o verão, tem contribuído para elevar em até cinco graus a temperatura nas calçadas”.(Comércio do Jahu - 23-1-97)

3- um texto literário - A galinha Cocoricó estava há dias chocando seu ovo, quando ouviu um barulhinho:

                                               - Chegou a hora! Meu filho vai nascer!

                                               A casca do ovo foi se partindo e uma frágil criaturinha começou a dar sinal de vida.

                                               Cocoricó não cansava de admirar a sua cria, que, toda desengonçada, tentava equilibrar-se sobre suas cambaleantes perninhas.

                                               Passadas algumas horas, lá estava o pintinho amarelinho, fofinho, aconchegado sob as penas de Cocoricó.

                                               - Você vai se chamar Uto!

4- Uma história em quadrinhos - utiliza ao mesmo tempo o código verbal e o não verbal e o contexto extralingüístico é importantíssimo para a compreensão da linguagem.

5-         Uma letra de música:

                                               “Era uma casa”.

                                               Muito engraçada

                                               Não tinha teto

                                               Não tinha nada

                                               Ninguém podia

                                               Entrar nela não

                                               Porque na casa

                                               Não tinha chão “(Vinicius de Moraes)”.

6-                                            um poema -

 

     Sonhe alto, sempre e mais.

Faça a cada dia a vida

   Na medida do seu sonho.

    Sonhe e, ao mínimo gesto,

  Seu ser inteiro empreste,

  Sua marca em tudo ponha

 Que o Homem não é alto

Nem baixo e se faz...

    Da estatura do que sonha!  

                

(Elcio Fernandes)

 

                                               Para que a narrativa tenha qualidades, o assunto deve ser relatado de forma original e despertar no leitor interesse pelo desenrolar da história. A linguagem deve ser clara, simples, correta e a história deve parecer real, ser verossímil, isto é, deve dar a impressão de que ela pode ter acontecido. Exemplo:

                                             “Era noite de inverno, uma daquelas não muito frias, a ocasião ideal para ouvir uma boa música. Pensando nisso, o casal se arrumou e foi ao teatro para ouvir o concerto da Banda”.

                                             O teatro estava quase lotado e percebia-se a presença de várias crianças andando ruidosamente pelos corredores.

                                             - Ih, pensou a mulher - criança pequena e concerto é uma combinação que raramente dá certo. Aliás, nunca dá certo.

                                              Mas ficou quieta, não comentou nada com o marido. Poderia parecer chata, implicante. Afinal, os tempos mudaram e talvez as crianças também; elas estão tão “adultificadas” que, quem sabe, podem até apreciar um bom concerto... Será?

                                             O castigo veio a cavalo, pois mal ela e o marido acomodaram-se nas primeiras poltronas de uma fileira, sentaram-se justamente atrás deles, um rapaz com a esposa, seu filhinho de uns quatro anos e um senhor de idade, o avô.

                                             - Ô mãe, quanta polícia lá no palco! Por quê?

                                             - É que a banda é da polícia!

                                             - Ô mãe, o que que aquele “ómi” com aquela baciona vai fazer?

                                             - Aquilo não é uma baciona. É um instrumento. Ele vai tocar! Aquilo é o “baxotuba”.

                                             - O quê? ! E aqueles “ómis” segurando aqueles bambus?

                                             - Não é bambu! Também é um instrumento. Fique quietinho que quando a banda começar a tocar, você vai ver ““.

                                            

                                        Um passo preparatório para a produção de texto narrativo, é, sem dúvida, a elaboração de falas em balões, dando seqüência.

                                             Os principais elementos de uma narrativa são:

                                        1- o enredo ou a trama - formado pelos fatos que se desenrolam durante a narrativa. Toda história tem uma introdução, na qual o autor apresenta a idéia principal, os personagens e o cenário; um desenvolvimento, no qual o autor detalha a idéia principal e há dois momentos distintos no desenvolvimento: a complicação (têm inícios os conflitos entre os personagens) e o clímax (ponto culminante) e um desfecho, que é a conclusão da narrativa.

                                Exemplo: O rapaz varou a noite inteira conversando com os amigos pela Internet. O pai, quando acordou às 6 horas, percebeu a porta do escritório fechada e a luz acesa. O filho ainda estava no computador e não havia ido dormir. Sem que este percebesse, trancou a porta por fora. Meia hora depois, o filho queria sair e teve que chamar o pai, que abriu a porta.

                                       2- o tempo cronológico ou exterior - é marcado pelo relógio. É o espaço de tempo em que os acontecimentos desenrolam e os personagens realizam suas ações; psicológico ou interior, não pode ser medido como o tempo cronológico, pois se refere à vivência dos personagens, ao seu mundo interior.

                                      3- o espaço - onde os acontecimentos se desenrolam.

                                     Exemplo: O céu se fechou em nuvens negras, relâmpagos iluminavam tudo.Começou a chover forte.

                                      4-    os personagens - são os seres envolvidos nos fatos e que formam o enredo da história. Eles falam, pensam, agem, sentem, têm emoções. Qualquer coisa pode ser transformada em personagem de uma narrativa. Os personagens podem ser pessoas, animais, seres inanimados, seres que só existem na crendice popular, seres abstratos ou idéias e outros. Oprotagonista é o personagem principal, aquele no qual se centraliza a narrativa. Pode haver mais de um na narração. O antagonista é o personagem que se opõe ao principal. Há ainda os personagens secundários, que são os que participam dos fatos, mas não se constituem o centro de interesse da narração.

                                              A fala dos personagens pode ser feita em discurso direto (com diálogos e verbos de elocução - o próprio personagem fala) e em discurso indireto (o autor conta com suas próprias palavras o que o personagem diria.).     

                                Exemplo de discurso direto:

-          Você sabe que o seu irmão chegou?

 

                                Exemplo de discurso indireto:

                                Ele perguntou se ele sabia que o seu irmão havia chegado.

                                            

                                Há ainda o discurso indireto livre, que mescla o discurso direto com o indireto, dando a impressão que o narrador e o personagem falam em uníssono. Não há presença de verbos de elocução, de travessões, dois pontos, nem de orações subordinadas substantivas próprias do discurso indireto.

           

                               Exemplo de discurso indireto livre:

                               “Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa”. (Graciliano Ramos)

 

                              5- o narrador - é quem relata os fatos. O narrador pode assumir duas posições:

                             a - narrador observador (narrador de terceira pessoa - o foco narrativo é de terceira pessoa) - relata os acontecimentos como observador. Alguém está observando o fato e conta o que acontece ou aconteceu. Esse observador pode participar da história ou estar fora dela. A narrativa desenvolve-se em terceira pessoa. Exemplo: “Ele morava numa cidadezinha do interior. Tinha nascido ali, conhecida todo mundo. Era muito dado, dado demais para o gosto da mulher, que estava sempre de olho nos salamaleques que ele vivia fazendo para a mulherada do lugar. - Puras gentilezas - dizia ele. Afinal, sou um cavalheiro...

                                  Levantava-se todos os dias na mesma hora, tomava o seu café, pegava a garrafa de água, o panamá, o cachorro e ia para a fazenda, herança de família. Mas não era de só ficar dando ordens não. Gostava mesmo era da lida.”

                                   b- narrador personagem  (narrador de primeira pessoa - o foco narrativo é de primeira pessoa) - um personagem participante da história narra os fatos. Vê os fatos de dentro para fora e a narrativa desenvolve-se em primeira pessoa. Exemplo: “Contou-me uma guia em Buenos Aires, que quando se diz que essa cidade é a mais européia das Américas, muitas pessoas torcem no nariz. Pura dor de cotovelo! Quem conhece Buenos Aires como eu, sabe que isso é verdade.”

                                  De acordo com o conceito de narração, pode-se narrar tantos fatos reais, que é o relato de ações praticadas pelas pessoas (livros científicos, livros de história, notícia de jornal), como fatos fictícios, com personagens que podem até ser reais, mas que não tem necessariamente compromisso com a realidade. Neste último caso, o fato pode ser totalmente inventado ou até baseado na realidade, porém enriquecido pela imaginação de quem relata.

 

                                   DISSERTAÇÃO 

                         A dissertação é uma exposição, discussão ou interpretação de uma determinada idéia. Pressupõe um exame crítico do assunto, lógica, raciocínio, clareza, coerência, objetividade na exposição, um planejamento de trabalho e uma habilidade de expressão.  

                          No discurso dissertativo propriamente dito, não se verifica, como na narração, progressão temporal entre as frases e, na maioria das vezes, o objeto da dissertação é abstraído do tempo e do espaço.

 

                           Alguns pontos essenciais desse tipo de texto são:

 

a-                                          toda dissertação é uma demonstração, daí a necessidade de pleno domínio do assunto e habilidade de argumentação;

b-                                          em conseqüência disso, impõem-se à fidelidade ao tema;

c- a coerência é tida como regra de ouro da dissertação;

d-                                          impõem-se sempre o raciocínio lógico;

e-    a linguagem deve ser objetiva, denotativa; qualquer ambigüidade pode ser um ponto vulnerável na demonstração do que se quer expor. Deve ser clara, precisa, natural, original, nobre, correta gramaticalmente. O discurso deve ser impessoal (evitar-se o uso da primeira pessoa).

 

                            O parágrafo é a unidade mínima do texto e deve apresentar: uma frase contendo a idéia principal (frase nuclear) e uma ou mais frases que explicitem tal idéia.

 

                          Exemplo: “A televisão mostra uma realidade idealizada (idéia central) porque oculta os problemas sociais realmente graves. (idéia secundária)”.

 

                            Exemplo: idéia central - A poluição atmosférica deve ser combatida urgentemente.

 

                             Desenvolvimento - A poluição atmosférica deve ser combatida urgentemente, pois a alta concentração de elementos tóxicos põe em risco a vida de milhares de pessoas, sobretudo daquelas que sofrem de problemas respiratórios:

 

a-                                          A propaganda intensiva de cigarros e bebidas tem levado muita gente ao vício.

b-                                          A televisão é um dos mais eficazes meios de comunicação criados pelo homem.

c- A violência tem aumentado assustadoramente nas cidades e hoje parece claro que esse problema não pode ser resolvido apenas pela polícia.

d-                                          O diálogo entre pais e filhos parece estar em crise atualmente.

e-    O problema dos sem-terra preocupada cada vez mais a sociedade brasileira.

 

                      O parágrafo pode processar-se de diferentes maneiras:

                                      

                      1- Enumeração - Caracteriza-se pela exposição de uma série de coisas, uma a uma. Presta-se bem à indicação de características, funções, processos, situações, sempre oferecendo o complemente necessário à afirmação estabelecida na frase nuclear. Pode-se enumerar, seguindo-se os critérios de importância, preferência, classificação ou aleatoriamente.

 

                         Exemplo: O adolescente moderno está se tornando obeso por várias causas: alimentação inadequada, falta de exercícios sistemáticos e demasiada permanência diante de computadores e aparelhos de tv.

 

                         Exemplo: Devido à expansão das igrejas evangélicas, é grande o número de emissoras que dedicam parte da sua programação à veiculação de programas religiosos de crenças variadas.

 

Enumeração –

 

a-                                           A Santa Missa em seu lar

b-                                           Terço Bizantino

c- Despertar da Fé

d-                                           Palavra de Vida

e-    Igreja da Graça no Lar

 

1-                                            Inúmeras são as dificuldades com que se defronta o governo brasileiro diante de tantos desmatamentos, desequilíbrios sociológicos e poluição.

2-                                            Existem várias razões que levam um homem a enveredar pelos caminhos do crime.

3-                                            A gravidez na adolescência é um problema seriíssimo, porque pode trazer muitas conseqüências indesejáveis.

4-                                            O lazer é uma necessidade do cidadão para a sua sobrevivência no mundo atual e vários são os tipos de lazer.

5-                                            O Novo Código Nacional de trânsito divide as faltas em várias categorias.

                                              

                               2 - Comparação - A frase nuclear pode-se desenvolver através da comparação, que confronta idéias, fatos, fenômenos e apresenta-lhes a semelhança ou dessemelhança.

 

                              Exemplo: “A juventude é uma infatigável aspiração de felicidade; a velhice, pelo contrário, é dominada por um vago e persistente sentimento de dor, porque já estamos nos convencendo de que a felicidade é uma ilusão, que só o sofrimento é real“. (Arthur Schopenhauer)

 

                             3 - Causa e conseqüência - A frase nuclear, muitas vezes, encontra no seu desenvolvimento um segmento causal (fato motivador) e, em outras situações, um segmento indicando conseqüências (fatos decorrentes).

                          

                            Exemplo: O homem, dia a dia, perde a dimensão de humanidade que abriga em si, porque os seus olhos teimam apenas em ver as coisas imediatistas e lucrativas que o rodeiam.

                          O espírito competitivo foi excessivamente exercido entre nós, de modo que hoje somos obrigados a viver numa sociedade fria e inamistosa.

                   

                           4 - Tempo e Espaço - Muitos parágrafos dissertativos marcam temporal e espacialmente a evolução de idéias, processos.

 

                          Exemplo: Tempo - A comunicação de massas é resultado de uma lenta evolução. Primeiro, o homem aprendeu a grunhir. Depois deu um significado a cada grunhido. Muito depois, inventou a escrita e só muitos séculos mais tarde é que passou à comunicação de massa.

 

                        Espaço - O solo é influenciado pelo clima. Nos climas úmidos, os solos são profundos. Existe nessas regiões uma forte decomposição de rochas, isto é, uma forte transformação da rocha em terra pela umidade e calor. Nas regiões temperadas e ainda nas mais frias, a camada do solo é pouco profunda. (Melhem Adas).

         

                    5 - Explicitação - Num parágrafo dissertativo pode-se conceituar, exemplificar e aclarar as idéias para torná-las mais compreensíveis.

 

                   Exemplo: “Artéria é um vaso que leva sangue proveniente do coração para irrigar os tecidos. Exceto no cordão umbilical e na ligação entre os pulmões e o coração, todas as artérias contém sangue vermelho-vivo, recém oxigenado. Na artéria pulmonar, porém, corre sangue venoso, mais escuro e desoxigenado, que o coração remete para os pulmões para receber oxigênio e liberar gás carbônico”.

 

                 Antes de se iniciar a elaboração de uma dissertação, deve delimitar-se o tema que será desenvolvido e que poderá ser enfocado sob diversos aspectos. Se, por exemplo, o tema é a questão indígena, ela poderá ser desenvolvida a partir das seguintes idéias:

a-                                            A violência contra os povos indígenas é uma constante na história do Brasil.

b-                                            O surgimento de várias entidades de defesa das populações indígenas.

c- A visão idealizada que o europeu ainda tem do índio brasileiro.

d-                                            A invasão da Amazônia e a perda da cultura indígena.

 

                    Depois de delimitar o tema que você vai desenvolver, deve fazer a estruturação do texto.

 

                    A estrutura do texto dissertativo constitui-se de:

1-                                            Introdução - deve conter a idéia principal a ser desenvolvida (geralmente um ou dois parágrafos). É a abertura do texto, por isso é fundamental. Deve ser clara e chamar a atenção para dois itens básicos: os objetivos do texto e o plano do desenvolvimento. Contém a proposição do tema, seus limites, ângulo de análise e a hipótese ou a tese a ser defendida.

 

2-                                            Desenvolvimento - exposição de elementos que vão fundamentar a idéia principal que pode vir especificada através da argumentação, de pormenores, da ilustração, da causa e da conseqüência, das definições, dos dados estatísticos, da ordenação cronológica, da interrogação e da citação. No desenvolvimento são usados tantos parágrafos quantos forem necessários para a completa exposição da idéia. E esses parágrafos podem ser estruturados das cinco maneiras expostas acima.

 

3-                                            Conclusão - é a retomada da idéia principal, que agora deve aparecer de forma muito mais convincente, uma vez que já foi fundamentada durante o desenvolvimento da dissertação. (um parágrafo). Deve, pois, conter de forma sintética, o objetivo proposto na instrução, a confirmação da hipótese ou da tese, acrescida da argumentação básica empregada no desenvolvimento.

 

                                               Observe o texto abaixo: 

                                               Vida ou Morte

 

INTRODUÇÃO

A grande produção de armas nucleares, com seu incrível potencial destrutivo, criou uma situação ímpar na história da humanidade: pela primeira vez, os homens têm nas mãos o poder de extinguir totalmente a sua própria raça da face do planeta.

 

DESENVOLVIMENTO

A capacidade de destruição das novas armas é tão grande que, se fossem usadas num conflito mundial, as conseqüências de apenas algumas explosões seriam tão extensas que haveria forte possibilidade de se chegar ao aniquilamento total da espécie humana. Não haveria como sobreviver a um conflito dessa natureza, pois todas as regiões seriam rapidamente atingidas pelos efeitos mortíferos das explosões.

 

CONCLUSÃO

Só resta, pois, ao homem uma saída: mudar essa situação desistindo da corrida armamentista e desviando para fins pacíficos os imensos recursos econômicos envolvidos nessa empreitada suicida. Ou os homens aprendem a conviver em paz, em escala mundial, ou simplesmente não haverá mais convivência de espécie alguma, daqui a algum tempo. (Texto adaptado do artigo “Paz e corrida armamentista” in Douglas Tufano, p. 47).

 

 

                                             Na introdução, o autor apresenta o tema (desenvolvimento científico levou o homem a produzir bombas que possibilitam a destruição total da humanidade), no desenvolvimento, ele expõe os argumentos que apóiam a sua afirmação inicial e na conclusão, conclui o seu pensamento inicial, com base nos argumentos.

 

                                             Na dissertação, pode-se construir frases de sentido geral ou de sentido específico, particular. Às vezes, uma afirmação de sentido geral pode não ser inaceitável, mas se for particularizada torna-se aceitável. Exemplo: É proibido falar ao telefone celular. (sentido geral) É proibido falar ao telefone celular dirigindo. (sentido específico)

 

                                             Quando o autor se preocupa principalmente em expor suas idéias a respeito do tema abordado, fica claro que seu objetivo é fazer com que o leitor concorde com ele. Nesse caso, tem-se a dissertação argumentativa Para que a argumentação seja eficiente, o raciocínio deve ser exposto de maneira lógica, clara e coerente.

 

                                               O autor de uma dissertação deve ter sempre em mente, as possíveis reações do leitor e por isso, deve-se considerar todas as possíveis contra-argumentações, a fim de que possa “cercar” o leitor no sentido de evitar possíveis desmentidos da tese que se está defendendo. As evidências são o melhor argumento.

 

                                               As referências bibliográficas estar de acordo com as normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).

 

                                             A bibliografia final deve seguir o seguinte padrão:

 

a-                                          Autor - último sobrenome com letra maiúscula, separado da vírgula dos outros prenomes; (ponto e dois espaços ou travessão).

b-                                          Título - sublinhar ou colocar em itálico; (ponto).

c- Anotador ou tradutor -(ponto)

d-                                          Número da edição - se for a primeira , não se indica. Algarismo arábico, ponto, ed. (vírgula).

e-                                          Casa publicadora - nome da casa (vírgula)

f- Ano da Publicação - em algarismo arábico (ponto)

g-                                          Número de páginas ou volumes - em algarismos arábicos (ponto) Abrevia-se p. e não pág ou pg.

h-                                         Ilustrações - se necessário (ponto)

i-   Série ou coleções - em algarismos arábicos, entre parênteses (ponto)

                                             Esquema comparativo

 

 

DESCRIÇÃO

NARRAÇÃO

DISSERTAÇÃO

 

Conteúdo específico

Retrato verbal: imagem: aspectos que caracterizam, singularizam o ser ou objeto descrito.

Fatos - pessoas e ações que geram o fato e as circunstâncias em que este ocorre: tempo, lugar, causa, conseqüência, etc.

Idéias - exposição, debate, interpretação, avaliação - explicar, discutir, interpretar, avaliar idéias.

 

Faculdade humana

Observação-percepção-relativismo desta percepção

Imaginação (fatos fictícios) -pesquisa-observação(fatos reais)

Predomínio da razão - reflexão - raciocínio-argumentação.

 

Trabalho de Composi-ção

.Coleta de dados -. .Seleção de imagens, aspectos - os mais singularizantes.

.Classificação - enumeração das imagens e/ou aspectos selecionados

.Levantamento (criação ou pesquisa) dos fatos

. Organização dos elementos narrativos (fatos, personagens, ambiente, tempo e outras circunstâncias).

.Classificação-sucessão

. Levantamento das idéias

.Definição do ponto de vista dissertativo: exposição, discussão, interpretação.

 

Formas

Descrição subjetiva: criação, estrutura mais livre.

Descrição objetiva: precisão, descrição e modo científico.

Narração artística:subjetividade, criação, fatos fictícios.

Narração objetiva:fatos reais, fidelidade.

Dissertação científica– objetividade, coerência, solidez na argumentação, ausência de intervenções pessoais, emocionais, análise de idéias.

Dissertação literária- criatividade e argumentação.

 

 

 

 

 

 

 

Bibliografia 

1-         FARACO, Carlos e Francisco Moura - Para Gostar de Escrever - 3a Edição , São Paulo,  Editora Ática , 1986. 

2-         TUFANO, Douglas - Estudos de Redação - 3a edição, São Paulo, Editora Moderna, 1992. 

3-         BRAIT, Negrini e Lourenço - Aulas de Redação - 1a edição, São Paulo, Atual Editora, 1980. 

4-         FARACO, Carlos - Trabalhando com a Narrativa - 1a edição, São Paulo, Editora Ática, 1992. 

5-         MAGALHÃES, Roberto - Técnicas de Redação  - 3a edição, São Paulo, Editora do Brasil. 

6- BARROS, Jayme - Encontros de Redação - 1a edição, São Paulo, Editora    Moderna, 1987. 

7-         IGNÁCIO, Sebastião Expedito.  - Redação Escolar e Acadêmica. Araraquara, ILCSE, 1984.

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