Revolução Russa

Introdução

Momento histórico de extraordinário impacto mundial, a revolução russa marcou o fim de um dos últimos impérios de monarquias hereditárias e absolutistas do mundo. Com ela, o socialismo ascendeu pela primeira vez ao poder e a ideologia comunista passou a exercer profunda influência no cenário internacional e mesmo na vida interna de todas as nações.
Revolução russa é a designação que se dá ao processo que, em dois momentos no mesmo ano de 1917, derrubou o governo imperial da Rússia e instalou o comunismo no poder. O primeiro momento deu-se com a revolução de fevereiro, que promoveu a queda do czarismo e a instalação de um governo da burguesia, democrático e liberal; o segundo, com a revolução de outubro, marcou o momento da tomada do poder pelos bolcheviques marxistas, início da história de um novo país que se chamou União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Pelo calendário gregoriano, usado na maioria dos países, inclusive no Brasil, esses movimentos ocorreram em março e novembro de 1917, mas tornaram-se datas históricas segundo o calendário juliano, que conta as datas com atraso de 13 dias em relação ao gregoriano e vigorou na Rússia até fevereiro de 1918.
Ao longo da segunda metade do século XIX, a Rússia viveu uma crise profunda em conseqüência de fatores que exerciam influências recíprocas e divergentes sobre todos os setores da vida social e política do país. Vigorava no império um sistema político de monarquia autocrática que se chocava com o modelo econômico de capitalismo moderno, em que as relações de produção entrelaçavam-se com as do tipo feudal. Havia insustentáveis desigualdades econômicas e sociais entre a poderosa e privilegiada classe de nobres proprietários de terras e uma imensa população de camponeses, grande massa de maioria analfabeta que até 1861 viveu em regime de servidão. A burguesia, numerosa e influente, estava insatisfeita com as dificuldades para exercer suas atividades comerciais e industriais, e o crescente operariado, formado geralmente de camponeses expulsos do campo por falta de condições de sobrevivência, estava submetido a condições de vida e trabalho extremamente duras e que não mais existiam nos países europeus industrializados. Apenas os nobres, com seus imensos privilégios, estavam satisfeitos com a situação do país.
Resumindo, a Revolução Comuinsta eclodiu num país "atrasado" da Europa, graças à combinação de uma série de fatores:

o As derrotas da Primeira Guerra Mundial;

o O absolutismo do governo;

o A crise econômica;

o Grande desigualdade social existente no país;

o A fome que atingia grande parte da população;

o Pesados impostos;

o Desorganização administrativa;

o Desorganização econômico-social;

o Derrotas sofridas em numerosas guerras;

o Corrupção e incompetência do governo.

A Revolução Russa de 1917 é considerada o modelo clássico de revolução proletária que destruiu a ordem capitalista e burguesa lançando os fundamentos do primeiro Estado socialista da história da humanidade.
Portanto, a Revolução Russa de 1917 foi o modelo clássico de revolução burguesa que desmantelou a velha ordem feudal e aristocrática, criando as condições para o desenvolvimento do capitalismo moderno.
A partir de 1917, a Rússia caminhou no sentido de se transformar numa das mais importantes potências mundiais, em condições de se rivalizar com os Estados Unidos, o grande líder do mundo capitalista.

No Tempo dos czares

No final do século XIX, a Rússia era o Estado mais extenso da Europa com, aproximadamente, 150 milhões de habitantes. Mas esse império abrigava povos e culturas diversas, com graves desequilíbrios sociais, econômicos e políticos. Um dos principais problemas era a concentração de terras nas mãos de poucos proprietários. O êxodo rural crescia, o número de proletários aumentava nas cidades provocando uma forte oposição ao regime czarista que privilegiava a nobreza agrária, alguns integrantes da alta burguesia, o clero e a cúpula do exército.

A Revolução de 1905: "Ensaio geral" para 1917

Em 1904, a Rússia entrou em guerra com o Japão pela disputa de territórios, mas foi derrotada. A situação socioeconômica do país agravou-se e o regime político do czar Nicolau II foi abalado por uma série de revoltas, em 1905, envolvendo operários, camponeses, marinheiros e soldados do exército.
Greves e protestos contra o regime absolutista do czar explodiram em diversas regiões da Rússia. Os líderes socialistas procuraram organizar os trabalhadores em conselhos (os sovietes), nos quais se debatiam as decisões políticas a serem tomadas.
Diante do crescente clima de revolta, o czar Nicolau II prometeu realizar, pelo Manifesto de Outubro, grandes reformas no pais: estabeleceria um governo constitucional, pondo fim ao absolutismo, e convocaria eleições gerais para parlamento (duma), que elaboraria uma constituição para a Rússia.
Os partidos de orientação liberal burguesa deram-se por satisfeitos com as promessas do czar. O Partido Bolchevique ficou sozinho, com seu projeto de levar adiante a revolução dos trabalhadores com a monarquia do czar.
Terminada a guerra contra o Japão, o governo russo mobilizou as tropas especiais (cossacos) para reprimir os principais focos de revolta dos trabalhadores. Diversos líderes revolucionários foram presos, desmantelando-se os sovietes.
Assumido o comando da situação, Nicolau II deixou de lado as promessas liberais que tinha feito no Manifesto de Outubro. Apenas a duma continuou funcionando, mas com poderes limitados e sob intimidação policial das forças do governo.
A Revolta de 1905 tinha fracassado, mas serviu para que os líderes revolucionários avaliassem seus erros e suas fraquezas e aprendessem a superá-los. Foi, segundo Lenin, um ensaio geral para a futura luta.

A Rússia na Primeira Guerra Mundial

A Revolução Russa já estava anunciada desde 1905. O regime czarista estava minado por várias forças contrárias: a oposição política da nobreza liberal e da burguesia, as manifestações de operários e camponeses, o crescimento dos partidos socialistas e a insatisfação das minorias nacionais submetidas ao Império Russo e obrigadas a adotar a religião, a cultura e a língua russa, em detrimento das suas.
A Rússia entrou na Primeira Guerra Mundial despreparada para uma guerra moderna e de longa duração. É verdade que seu exército possuía o maior contingente de toda a Europa, mas o comando era ineficiente, não havia apoio logístico, faltavam armas e as táticas de guerra eram ultrapassadas.
No final de 1916, o exército russo estava próximo da ruptura. Perdera cerca de 5 milhões de soldados, entre mortos, feridos, doentes ou aprisionados pelos inimigos. Em princípios de 1917, o exército russo era uma enorme massa de soldados cansados, maltrapilhos, famintos e desarmados, desejosos da paz e enraivecidos com o imperador. A Rússia estava à beira de uma revolução interna muito mais séria e radical do que a de 1905.

Guerra Russo Japonesa: 1905

Em 1905, os russos foram derrotados pelos japoneses, numa guerra motivada por disputa sobre
a região chinesa da Mandchúria. As duras condições de vida da maioria da população, a corrupção que reinava na corte e esta derrota, tornaram a situação interna russa mais conflitante.
A insatisfação popular se manifestou por meio de greves e motins nas principais cidades. Os cossacos (soldados da guarda imperial) reprimiam violentamente as manifestações populares,
e o movimento de 1905 foi abafado.

Domingo Sangrento

Em janeiro de 1905, uma grande multidão reuniu-se ás portas do palácio imperial para pedir audiência ao czar. O exército abriu fogo contra eles matando muitos dos manifestantes. Esse fato, denominado "Domingo Sangrento", serviu de pretexto para uma série de revoltas no país inteiro. Uma poderosa unidade da frota do mar Negro, o encouraçado Potemkin, se juntou aos rebeldes.

História da Rússia Soviética da Revolução de 1917 ao Stalinismo

Já se tornou lugar comum afirmar que a Revolução Russa de 1917 tem o mesmo significado para o século XX do que a Revolução Francesa para o século passado. Ambas foram formidáveis movimentos de massas e idéias que deram novo perfil a História da Humanidade: transformaram a vida de milhões e empolgaram ou aterrorizaram outros tantos. A bibliografia sobre ambas é vastíssima e continuam provocando polêmica - mais a russa do que a francesa. Seu raio de ação e influência deslocou qualquer outro movimento anterior. Nem o Cristianismo, nem o Islamismo, nem o Budismo, nem qualquer outro movimento de massas e idéias atingiu seu ecumenismo. Naturalmente que isto se deveu a maior integração econômica e comercial do mundo, assim como pelo desenvolvimento das comunicações.
A presente exposição trata de destacar mais os aspectos teóricos do que os fatos que levaram a Rússia a Revolução. A primeira parte consta de uma síntese das principais idéias que forjaram o pensamento revolucionário de 1917 acompanhada da situação que se seguiu. Também dá destaque às transformações econômicas e políticas produzidas durante o período Stalinista (1928/53). No final do texto encontra-se um pequeno organograma sobre o socialismo e suas divisões.

As idéias: o socialismo

O conflito entre as duas grandes super-potências atuais, normalmente é descrito pela imprensa como um conflito entre Ocidente-Oriente, entre duas "Civilizações" antagônicas que se excluem mutuamente. No entanto, esta apresentação do confronto não resiste aos fatos. O que realmente está em conflito e/ ou coexistência são dois Sistemas Econômicos, políticos e Ideológicos distintos que não dependem de serem ou não Ocidentais ou de serem ou não Orientais. Por exemplo: se houvesse uma vitória do Partido Comunista francês ou italiano - a França e a itália deixariam de ser "ocidentais"? A Revolução Cubana, feita a duzentos quilômetros do território americano pode ser definida como "oriental"? E o Japão, um dos países asiáticos que mais conserva suas tradições, pode ser definido como "ocidental"? A China de Mao-Tse-Tung pode ser definida como "oriental" e a ilha de Formosa, a poucos quilômetros do conflitante chinês, como "ocidental"?
A mistificação de um conflito entre Ocidente-Oriente não se sustenta pela própria evidência. Então como poderíamos definir o real conflito? Como um confronto entre o Capitalismo e o Socialismo nas mais variadas formas com que ambos Sistemas se apresentam. E a característica comum entre ambos é exatamente serem internacionais - isto é, defendem valores ecumênicos, que podem ser aplicados em qualquer circunstância independentemente da cultura, raça, religião ou tradição. Naturalmente que estes fatores importam, mas apenas para dar distinções de grau em que o Capitalismo ou o Socialismo tomam forma. O Socialismo por exemplo, tanto pode vingar na Alemanha luterana, como na China budista. Tanto pode vingar entre os eslavos da Europa Oriental, como entre asiáticos da Indochina. O mesmo pode ser aplicado às forma capitalistas de produção que podem conviver com a democracia anglo-americana, como com as atuais ditaduras da América Latina. O Capitalismo pode se desenvolver na Itália católica, como na Turquia Islâmica ou no Haiti do fetichismo vodu. Há pois denominadores comum, basicamente porque traduzem um conflito em escala internacional: conflito de classes e de visão de mundo.
Como nosso tema é a Revolução Russa e suas conseqüências, vamos nos ater ao movimento de idéias que a inspirou para posteriormente desenvolvermos os principais eventos.
Para alguns historiadores o Socialismo surgiu durante a Revolução Francesa, como uma de suas correntes subterrâneas, tais como o movimento de Graccus Babeuf. No entanto, ele tornou-se sólido e substancialmente, muito tempo depois com Karl Marx e de Frederico Engels, quando da publicação do Manifesto Comunista em 1848.
Estes dois pensadores alemães, terminaram por produzir uma extensíssima obra econômica e política que permitiram extraordinário embasamento teórico e prático para o Socialismo. Engels, percebendo a diferença de Marx em relação às demais correntes socialistas e anarquistas, denominou seu pensamento, como "Socialismo Científico", classificando os demais como "Socialismo Utópico", visto que não apresentavam soluções práticas para a transformação da sociedade capitalista em sociedade socialista, limitando-se a elaborar fórmulas de sociedades perfeitas (tais como os projetos de Owen e Fourier). O pensamento de Marx, ao contrário destinava-se a mudar radicalmente o destino das sociedades humanas e sua filosofia era o instrumento desta formação. Segundo ele "as filosofias até agora trataram de compreender o mundo, trata-se de modificá-lo".



Sinteticamente suas idéias podem ser assim esquematizadas:

· Toda a História da Humanidade nada mais é do que um conflito permanente entre classes sociais antagônicas. Senhores e Escravos, Patrícios e Plebeus, Nobres e Burgueses e, na época contemporânea: Burgueses e Proletários. Quer dizer, as classes sociais e sua existência são condicionadas pela História e a Sociedade do futuro implica na sua abolição e na implantação da igualdade.

· Esta abolição da sociedade de classe faria devido a própria crise do Sistema Capitalista. Por gerar a constante concentração da Propriedade e das Rendas nas mãos de poucos, levaria por oposição, a aumentar a miséria geral dos não-proprietários, que se rebelariam e destruiriam esta sociedade. Como o processo histórico é dialético, tudo aquilo que existe (O Capitalismo) será superado por uma forma social superior (O Socialismo) nascida no próprio ventre da sociedade anterior. O Feudalismo teria sido mais ameno que o Escravagismo; o Capitalismo uma forma superior ao Feudalismo e, por conseqüência, o Socialismo seria superior ao Capitalismo. Estas grandes transformações são feitas pelos homens organizados em classes sociais. A Burguesia depôs a Nobreza, o Proletariado deporá a Burguesia.

· O Socialismo é por sua vez uma etapa intermediária, onde conviveriam formas da sociedade anterior (Capitalista) com formas da sociedade futura tingindo posteriormente a etapa final da pré-história da Humanidade - o Comunismo. Esta etapa de transição seria gerida pela "Ditadura do Proletariado"; a nova classe instalada no poder não poderia se desfazer do aparato Estatal, pois teria que enfrentar as ameaças da contra-revolução burguesa. Para Marx, o estado continua existindo (ao contrário dos anarquistas que propunham sua imediata abolição) como uma arma de defesa da Revolução.

· A Revolução proletária é pois inevitável, havendo dois caminhos para concretizá-la. Um conquistando posições estratégicas dentro da sociedade capitalista através da dinamização dos sindicatos e dos partidos operários; outra, por um golpe dado por revolucionários audazes que empalmariam o poder em favor dos proletários. Estas duas tendências estiveram sempre latentes dentro dos escritos políticos de Marx e Engels, gerando a atual diferenciação entre social-democracia e comunismo.

· Como conseqüência lógica do que foi exposto, Marx acreditava que a Revolução Proletária ocorreria num país onde o Capitalismo fosse suficientemente desenvolvido para gerar as condições necessárias a sua transformação. Para uma sociedade chegar ao Socialismo teria que necessariamente percorrer um longo desenvolvimento capitalista. Isto excluía a possibilidade de se chegar ao Socialismo numa sociedade atrasada onde a maioria da população é composta de camponeses e não de proletários urbanos (os exclusivos agentes de transformação da História). A implantação do Socialismo nas sociedades capitalistas não seria socialmente onerosa porque o desenvolvimento tecnológico permitiria atender a todos "segundo suas necessidades". A Humanidade livrar-se-ia, pois da alienação do trabalho e das exigências de atender aos ditames do Lucro e do Capital para suprir-se a sí própria.
Somente durante os últimos anos de sua vida, passou a granjear fama e respeito, cabendo parte do mérito a Engels, responsável pela divulgação de seus escritos (0 2º e 3º volume do Capital foram publicados após a morte de Marx) e pela preservação da pureza do pensamento do amigo.



O pensamento revolucionário na Rússia

Durante séculos a Rússia permaneceu isolada das grandes transformações sociais, econômicas e culturais porque passava a Europa Ocidental. A Reforma ou o Renascimento pouco efeito tiveram em sua paisagem política e cultural. O mesmo acontecendo com o Iluminismo e as Revoluções burguesas. Segundo Kireievski "o alargamento material do império absorveu durante séculos toda a energia do povo russo: o crescimento material tornou impossível o crescimento espiritual ". De fato o antigo principado de Moscóvia no século XIV, não ultrapassava em extensão a atual Finlândia. Trezentos anos depois, estendia seu domínio por mais de vinte e dois milhões de quilômetros quadrados, englobando as mais variadas culturas, religiões e grupamentos raciais - Seus grandes impulsionadores foram os czares Ivan III, Ivan IV (o Terrível), Pedro - o Grande e Catarina II. Submetendo a ferro e a fogo os tártaros, os turcos, os cossacos, os tcherquizes, os mongóis, os poloneses, e as tribos nômades da Sibéria; sua extensão, ia do Vístula na Polônia até o Oceano Pacífico, no extremo Oriente.
O governo dos czares - a autocracia absoluta - foi uma decorrência da necessidade de integração deste vasto território heterogêneo em tudo. Quando Bizâncio caiu em poder dos Turcos Otomanos, o Príncipe de Moscóvia atraiu para sua capital os restos da administração e do clero grego ortodoxo, assimilando suas práticas funcionais e hierárquicas. A igreja, tal como em Constantinopla, estava subordinada ao Estado e seu chefe era nomeado diretamente pelo Imperador. A Rússia desconheceu pois, o latente conflito existente na Europa Ocidental, entre o clero e o aparato estatal.
Esta fusão completa entre Estados e Igreja naturalmente contribuiu para o sufocamento do livre-pensar. A intelectualidade russa vivia permanentemente sob vigilância quer de parte do Estado quer de parte do Santo Sínodo. No entanto, a maior aproximação da Rússia com o Ocidente no século XIX (principalmente depois das guerras napoleônicas) tornou inevitável a penetração dos ideais libertários vindos da Europa. Primeiro sob a forma do liberalismo e em seguida do socialismo. Não deixa de ser um paradoxo que a Rússia do século XIX, pobre e brutalizada, terminasse por gerar grandes talento da literatura mundial tais como Gogol, Dostoevski, Tchecov, Turguenieff, Tolstoi e Gorki. E, na política, homens do porte de Alexandre Herzen, Bakunin, o Príncipe Kropotnik e o introdutor do marxismos na Rússia - George Plekhanov.

Os populistas: As reformas executadas pelo czar Alexandre II (entre 1861-5), tais como a abolição da servidão da gleba, criação das câmaras municipais (zemstvos), atenuação da censura na imprensa e nas universidades) foram provocadas pelo fracasso russo durante a Guerra da Criméia (1853-8) onde foram batidos pelos corpos expedicionários franco-britânicos, que impediram a Rússia atingir Constantinopla e ter acesso ao Mediterrâneo. Esta era de reformas, devido sua timidez, terminou por gerar um descontentamento ainda mais amplo. Desgostou a nobreza porque tornaram os camponeses "insolentes" estes, porque tiveram que se individar para obter sua autonomia; a intelligentsia porque haviam sido suficientemente profundas. É das camadas esclarecidas da população, que parte a primeira tentativa de derrubar o regime por um movimento não-palaciano. Inicialmente denominou-se "Terra e Liberdade" e seu objetivo era convencer a massa rural a sublevar-se contra o czar. O fracasso desta tentativa e a repressão que se seguiu, levou os populistas (narodniks) a embrenharem-se na sina do terrorismo político. Acreditavam que, abatendo as figuras exponenciais do regime czarista, provocariam a rebelião por exemplo. Em 1881 o próprio czar Alexandre foi vitimado por uma jovem militante, Sofia Perovskaia. Os populistas inspiravam-se nos anarquistas ocidentais, pensando poder levar a Rússia ao socialismo devido a existência de comunidades rurais organizadas em torno do mir (uma espécie de unidade de produção comunal) que facilitariam sua implantação. O terrorismo apenas reforçou ainda mais o aparto estatal e justificou a intensificação da opressão e da censura. É neste contexto que o marxismo vai surgir como alternativa à prática política e teórica dos narodniks.
Os social-democratas: Em março de 1898, na cidade de Minsk, nove delegados representando as principais cidades do país, reuniram-se para a formação do Iº Congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR). Denominação inspirada no Partido Social-Democrata alemão fundado por Lassale em 1863 e o mais poderoso partido político operário do Ocidente. Entre os delegados encontrava-se Vladmir Ilich Uliánov, cujo codinome era Lenin, o futuro fundador do Estado Soviético. Como resultado concreto do congresso foi difundido o Manifesto do POSDR, redigido por Peter Struve que, dentro da ortodoxia marxista, aceitava as duas etapas da futura Revolução Russa (a primeira de cunho democrático-burguesa e a segunda socialista-proletária sem fazer menção à ditadura do proletariado nem quais os meios para realizar sua missão). Os marxistas diferiam profundamente dos populistas e, tanto na Rússia como no exílio, intensificaram a polêmica sobre o destino do país e quais as táticas corretas a serem empregadas para a derrubada da autocracia . Em síntese, defendiam as seguinte posições:

· Era um profundo equívoco querer transformar a Rússia em um país socialista, pois o capitalismo ainda era incipiente não gerando as condições necessárias para a transição.

· A prática do terrorismo era absolutamente inócua pois não abalava a estrutura do regime: "de que adianta abater o czar se o czravitch está logo alí para substituir seu pai? ". Era necessário desenvolver um longo e amplo trabalho de "preparação" das massas, através da propaganda e da agitação. Leva-las à consciência da certeza da derrubada do czarismo como um todo e não em ações isoladas.

· Favorecer a implantação do capitalismo na Rússia. Quanto mais empresas e indústrias lá se instalassem mais cresceria o proletariado urbano e favoreceria o surgimento da única classe verdadeiramente revolucionária. Ironicamente, esta posição dos marxistas, serviu para que fossem vistos como menos perigosos pela Okrana, a polícia secreta do Czar, que passou dedicar maior atenção àqueles que, no momento, lhes pareciam mais ameaçadores, os terroristas populistas.
Os próprios marxistas, organizados em torno do POSDR, não estiveram por muito tempo unidos. Cinco anos depois - no exterior - organizaram um IIº Congresso (primeiro na Bélgica e depois em Londres) que terminou por levá-los à cisão. Formando-se duas facções: a da maioria (bolcheviques) e a da minoria (melcheviques). Aparentemente as causas da divisão foram motivos de pequena monta, mas terminaram por alargar-se com o tempo transformando-os em dois partidos distintos, e todas as tentativas de reunificação lograram em fracasso. (Como durante o Congresso de Estocolmo, em 1906).
Mesmo dentro do seu partido, Lenin teve que lutar várias vezes para que seus companheiros aceitassem seus pontos de vista. Como a Rússia, pouco desenvolvida e possuindo uma massa de mais de cem milhões de camponeses, poderia lançar-se na construção do Socialismo? Em primeiro lugar propôs que os operários se aliassem à massa rural, sem esta aliança um partido revolucionário teria escassas possibilidades de sobrevivência.
Em segundo lugar, acreditava que a Guerra Mundial (1914-18) terminaria por desencadear uma série de Revoluções proletárias e a Rússia não ficaria isolada. Deste modo, o evidente atraso econômico, cultural e tecnológico do país, receberia auxílio esterno. Apesar de suas divergências com a social-democracia alemã, Lenin tinha esperança que no momento aprazado o proletariado alemão faria a sua Revolução e socorresse seus camaradas. O fracasso desta expectativa conduziu União Soviética à teoria do "socialismo num só país" e a ascensão de Stalin ao poder supremo.
Mencheviques e Bolcheviques: Não nos cabe aqui expor toda a polêmica surgida em torno da questão do quadro editorial do jornal do Partido - O Iskra - a "centelha que deveria provocar a Revolução", e sim fixar as linhas gerais que levaram a formação das duas correntes.

O mencheviques, influenciados pelo pensamento convencional do marxismo europeu, influenciados pelo pensamento convencional do marxismo europeu, pregavam:

· A formação de um partido o mais amplo possível, considerando todo colaborador - direto ou indireto como um membro do partido;

· Não acreditavam na possibilidade da Rússia transitar rumo ao Socialismo sem antes percorrer o desenvolvimento do Capitalismo;

· Como conseqüência, deveriam aliar-se à burguesia para depor o czarismo.

Os bolcheviques - liderados por Lenin, apresentavam outra proposta:

· O partido deveria ser formado por revolucionários profissionais, só sendo membro quem militasse ativamente nas suas fileiras;

· Isso se devia à permanente infiltração de “agentes provocadores da polícia secreta do czar e pelas condições gerais da repressão na Rússia, que não permitiam a existência de um partido “aberto”“;

· Devido ao atraso das massas operárias e camponesas o partido se tornaria a "vanguarda do proletariado" composto por elementos mais conscientizados e endurecidos na luta política, disciplinados e obedientes ao Comitê Central. De certa forma, bolcheviques e mencheviques terminaram por concretizar as "duas vias" para o Socialismo que estavam latentes no pensamento de Marx e Engels. Quando ocorreu a revolução de fevereiro de 1917, derrubando o czarismo, os mencheviques exerciam uma enorme influência no meio dos operários de Petrogrado. No transcorrer do ano foram lentamente se desgastando na sua vã tentativa de amparar a esquálida burguesia russa, terminado por sucumbir junto com ela.
O leninismo: Podemos dizer que o Leninismo, como pensamento autônomo dentro do Marxismo, fundia-se inteiramente com o Bolchevismo. Pecaríamos pela verdade no entanto se não estabelecêssemos algumas distinções entre o Leninismo e o Bolchevismo, não esquecendo que, após a morte de Lenin, em 1924, o Bolchevismo continuou existindo, se fraccionando em várias tendências. As principais contribuições de Lenin para o plano teórico-prático do Socialismo e da Revolução seriam os seguintes: a) a tentativa de redefinir as perspectivas do desenvolvimento capitalista e/ou revolucionário na era do Imperialismo. Ao seu ver o Capitalismo encontrava-se extremamente consolidado nos países desenvolvidos fazendo com que parte da classe operária passasse a usufruir de uma melhoria substancial em seu modo de vida. Explicava-se a tendência reformista que o Socialismo havia assumido nestes países. No entanto, a dinâmica revolucionária deslocava-se para a periferia do Sistema. Nos países atrasados, onde o Capitalismo era pouco desenvolvido ocorreria a possibilidade de eclosão da Revolução "quebra a corrente capitalista em seu elo mais fraco". As teorias de Lenin foram consideradas verdadeiras heresias contra o pensamento de Marx e sua posição foi de quase total isolamento.
A Revolução Russa de Fevereiro (março pelo calendário atual) foi um enorme movimento de massas que espontaneamente rebelaram-se contra o czarismo. Nenhum partido as insulflou. Ao contrário, a grande maioria dos revolucionários militantes foi surpreendida - acrescente-se que a maioria deles estava presa na Sibéria (como Stalin) ou no exílio (Lenin na Suiça e Trotski nos Estados Unidos). Como também foi espontânea a organização de sovietes (conselhos) em todas as fábricas, repartições, bairros e regimentos militares, que passaram a formar um poder paralelo.

Revolução Branca

A partir disso, dois poderes instalaram-se na capital, Perorado. O governo da Duma, a Assembléia dominada pelo partido burguês Kadet, e o poder efetivo das ruas, que obedecia ao Soviete de Perorado, controlado pelos partidos Mencheviques e Socialista-Revolucionário. Os bolcheviques não estavam representados, pois sua liderança estava presa ou exilada e sua participação nos sovietes era minoritária.
A Duma e o Soviete de Perorado formaram um governo provisório, liderado pelo nobre liberal Lvov, do qual participavam representantes do Kadet e dos sovietes. Era o chamado governo de coalizão.

O governo provisório procurou realizar algumas medidas inadiáveis desejadas pelas oposições políticas, tais como:

· Redução da jornada de trabalho de 12 para oito horas;

· Anistia aos presos políticos e permissão para o regresso ao país dos exilados;

· Garantia das liberdades fundamentais do cidadão.

Esse governo provisório proclamou as liberdades fundamentais do homem, anistiou os presos, mas não resolveu os problemas prementes: "paz, pão e terra" para os camponeses.

Revolução Vermelha

Em 7 de novembro de 1917 (25 de outubro, pelo calendário russo) os bolcheviques cercaram a cidade de Petrogrado, que sediava o governo provisório com o intuito de tomar o poder. O líder do governo, Kerensky, conseguiu fugir, mas diversos outros governantes foram presos. Os sovietes da Rússia reuniram-se num congresso e delegaram o poder governamental para o Conselho dos Comissários do Povo , presidido por Lenin. Sem demora, esse conselho tomou medidas de grande impacto revolucionário, como:

Pedido de paz imediata: Retirar a Rússia da Primeira Guerra Mundial e assinou com a Alemanha o Tratado de Brest-Litovsk, firmando a paz com os alemães.

Confisco de propriedades privadas: Reforma Agrária, ou seja, grandes propriedades foram tomadas dos aristocratas e da Igreja Ortodoxa para serem distribuídas entre o povo.

Estatização da economia: Controle Operário das fábricas, isto é, O novo governo passou a intervir diretamente na vida econômica, nacionalizando diversas empresas.

Declaração do direito nacional dos povos: O novo governo comprometeu-se a acabar com a dominação exercida pelo governo russo sobre regiões como a Finlândia, a Geórgia, a Armênia entre outros

A "DUMA" e os "SOVIETS"

O que é soviets

Um dos primeiros conselhos de trabalhadores soviéticos foi organizado por Trotsky em 1905. Um conselho popular de estrutura livre que defendia uma forma de governo socialista radical e atuava como um governo paralelo.
Composto de analfabetos, operários, soldados e até camponeses, seus membros eram escolhidos por aclamação popular, funcionava sem jurisdição e sem qualquer regra ou procedimentos fixos.

Duma

As pressões sobre o governo imperial czarista levou-o a promulgar o "Manifesto de Outubro"em 1905, no qual fazia promessa liberais, tentando acalmar a oposição ao seu governo. Dentre essas promessas, além de transformar seu governo numa monarquia constitucional, o czar prometia a adoção da DUMA, ou seja, uma Assembléia Nacional Parlamentar com a finalidade de exercer um poder de caráter legislativo. Seria eleita com base na afiliação político partidária e estendida a todos os partidos, incluindo os revolucionários mais radicais.
A primeira Duma foi eleita em março de 1906. Mais de 40 partidos e grupos políticos estavam representados com predomínio dos "kadets". Quando começou seus trabalhos, mostrou-se demasiado liberal para a administração czarista, levando o governo a dissolve-la;
A segunda Duma se reuniu em março de 1907. Era uma Duma hostil ao governo imperial e dela fazia parte Lenine e os bolcheviques e por isso foi dissolvida mais depressa que a primeira.
O governo fez algumas mudanças no processo eleitoral para escolha dos representantes da Duma de forma a favorecer os partidos mais conservadores.
A terceira Duma, beneficiada pelas mudanças do processo de eleição, possuía em suas fileiras uma maioria de representantes da direita conservadora e cumpriu, integralmente, seu mandato de cinco anos. Apesar do seu aspecto conservador, essa Duma introduziu muitas reformas; concedeu direitos civis ao camponeses ao introduzir a justiça local e expandir o sistema educacional;
A Quarta Duma, mais conservadora que a anterior, teve que contornar problemas diversos com o início das revoluções da década de 20 e outros relacionados com a 1ª Guerra Mundial.
Após a revolução de outubro de 1917, essas Assembléias foram quase que ignoradas e durante o governo de Stalin, praticamente desapareceram.

As Causas

Christopher Hill aponta as seguintes "causas gerais" da Revolução Russa:

· Primeiramente é de que o desenvolvimento econômico do país era extremamente moroso; seu comércio e sua indústria encontravam-se nas mãos de estrangeiros e o grosso da produção era consumido pelo próprio Estado.

· Isso levou a que a burguesia e a classe média pouco puderam se desenvolver. A burguesia russa jamais atingiu a autonomia da ocidental, pois sua dependência do Estado era muito grane. O poder concentrado nas mãos do Czar pouco espaço deixava para o florescimento do liberalismo, que atingiu apenas uma pequena fração da população - aqueles que eram muito ricos.

· A presença estrangeira no financiamento da industrialização russa, tornou a burguesia um apêndice do sistema internacional fazendo-a procurar proteção junto ao Czar (tarifas protecionistas, etc.).

· A extraordinária concentração de operários nos grandes centros urbanos do país (perto de três milhões) e a super-exploração a que estavam submetidos (o capitalista russo só sabia competir reduzindo os gasto e não implementando tecnologia levando-os a forçar para baixo o padrão de vida dos operários). Devido a exigüidade do espaço político, impedidos de participarem, nos partidos e no parlamento, o operariado russo seguiu a estrada da revolução e não do Reformismo.
Estes são pois um conjunto de fatores mais amplos, de estrutura que terminaram por favorecer um tipo específico de Revolução. O colapso geral, deu-se com a entrada da Rússia na Grande Guerra. A incapacidade do czarismo em vencer e as insuportáveis condições internas, terminaram por fazer com que a eclosão do movimento revolucionário fosse incontrolável.

As três etapas da Revolução de 1917

· De fevereiro a julho: o governo encontrou-se dividido entre o poder formal (o Governo Provisório liderado pela burguesia, classe-média e setores da nobreza liberal) e os Sovietes (de operários soldados e marinheiros) sem cuja aquiescência pouco podia ser feito.

· De julho a setembro: a insistência do Governo Provisório em manter o país na guerra contra a Alemanha, levou a exacerbação dos setores populares e, tanto os bolcheviques (em julho) como os contra-revolucionários (em setembro), tentam derrubar o governo de Kerenski (um social-revolucionário) que representava a coalisão entre os liberais, os melcheviques e os social-revolucionários. A tentativa direitista do Gen. Kornilov, fracassa. Os bolcheviques que haviam sido perseguidos e presos (inclusive obrigando Lenin a refugiar-se temporariamente na Finlândia), voltam a gozar de popularidade.

· De setembro a outubro: a ofensiva militar contra os alemães, organizada por Kerenski (pressionado pelos aliados franco-britânicos) é derrotada. Milhares de soldados abandonam o fronte, desertando em massa, terminando por engrossar as fileiras dos bolcheviques que prometiam paz imediata e distribuição das terras para os camponeses. O Governo Provisório não tinha mais condições de subsistir. No dia 25 de outubro, os bolcheviques apoiados pelos principais regimentos de Petrogrado, pelos marinheiros da esquadra do Báltico e da Fortaleza de Kronstadt, e pelos Guardas Vermelhos (operários armados) tomam de assalto o Palácio de Inverno - sede do Governo Provisório. O mesmo acontece na maior parte do país, havendo apenas resistência maior em Moscou. O golpe de Estado desfechado pelos bolcheviques foi incruento - poucas foram as vítima em outubro e novembro. O país ainda teria que enfrentar uma ameaça ainda maior que a própria guerra - a guerra civil (1918-21) que atingiria todas as aldeias e rincões do país, levando-o à completa exaustão e a mais de um milhão de mortos.

1918: O ano I da Revolução

A justificativa para a tomada do poder pelos bolcheviques foi dada por Lenin no dia seguinte de sua chegada ao exílio - sete meses antes de tornar-se concreta. A exposição de motivos denominou-se "Teses de Abril" cuja síntese é a seguinte: a) denunciou a guerra como sendo imperialista, rapinesca que o proletariado consciente devia se descompromissar de apoia-la. O proletariado só pode dar seu apoio a uma guerra Revolucionária que deponha a burguesia. A guerra imperialista é conseqüência do capitalismo. Sem a derrubada deste não é possível obter a paz; b) determinou que a peculiaridade do momento atual da Rússia consistia em que o primeiro passo ou etapa da Revolução deu o poder a burguesia, sua segunda etapa deverá ocorrer quando o poder estiver nas mãos do proletariado e das camadas pobres do campesinato; c) portanto os bolcheviques negam-se dar apoio ao Governo Provisório (ocupado pela burguesia). Lenin tem consciência de que os bolcheviques são minoria mas confia que a marcha dos acontecimentos e o crescimento da insatisfação os tornará maioria, criando-se assim a "legitimidade" para tomar o poder. O novo regime seria não uma República Parlamentar mas uma República Soviética; d) estabelece um programa agrário de nacionalização de todas as terras e sua pronta entrega aos camponeses, a fusão de todos os bancos sob controle dos deputados proletários, o imediato controle da produção social e da distribuição dos produtos pelos sovietes e proclama a necessidade da formação de uma nova Internacional Socialista (pois os sociais-democratas europeus apoiaram a entrada de seus países na guerra imperialista, traíndo a causa do internacionalismo socialista). O ano I da Revolução seria aquele em que as promessas de Lenin deveriam ser cumpridas. A paz com a Alemanha foi acertada em Brest Litovsk. Os bolcheviques tiveram que ceder milhares de quilômetros quadrados ao império dos Hoenzollers. As fábricas, minas, bancos, estradas de ferro e o comércio foram entregues às administrações dos operários e funcionários, e foi atendida a "fome de terra" dos camponeses com a abolição da propriedade fundiária.
Se a paz com a Alemanha retirou o país da guerra, a "necessária folga" do novo regime pouco durou. A guerra civil desenhava-se no horizonte e seria uma das mais cruentas da história do nosso século.

A guerra civil e o comunismo de guerra

A guerra civil eclodiu em abril de 1918. Em várias regiões da Rússia, ex-generais Czaristas levantaram suas tropas contra o governo bolchevique. Aproveitando-se do verdadeiro caos em que o país se encontrava, as nações aliadas resolveram intervir a favor dos brancos. Tropas inglesas, francesas, americanas e japonesas desembarcaram tanto nas regiões ocidentais (Criméia e Georgial) como nas orientais (ocupação de Vladivostok e da Sibéria Oriental). Seus objetivos eram: derrubar o governo bolchevique (que era pela paz com a Alemanha) e instaurar um regime neoczarista (a favor da continuação da Rússia na guerra); mas talvez seu objetivo maior fosse evitar a "contaminação" da Europa Ocidental pelos ideais bolcheviques - daí a expressão utilizada por Clemenceau, Presidente da França - de "cordon sanitaire".
Para poder enfrentar a maré contra-revolucionária, o novo governo instituiu o Exército Vermelho, comandado por Leon Trotski que revelou-se um brilhante estrategista, disciplinador rígido e líder das tropas. Na passagem dos anos vinte para vinte e um, todas as formações contra-revolucionárias haviam sido derrotadas e seus principais expoentes (Koltchak, Wagran, Denikin e Yudenich) exilaram-se no exterior. As forças expedicionárias aliadas foram obrigadas a retira-se, tanto pela derrota dos Brancos, pressão da opinião pública internacional.
No terreno econômico, devido a situação de emergência e pelo próprio ímpeto revolucionário, instituiu-se o "comunismo de guerra". O dinheiro e as leis do mercado foram abolidas., sendo substituídos por uma economia dirigida baseada no confisco de cereais produzidos pelos camponeses. Naturalmente estas medidas criaram um desestímulo a plantio, levando-os a produzirem exclusivamente para o sustento de suas famílias. O resultado foi catastrófico. Os centro urbanos ficaram sem alimentos, provocando um êxodo urbano - (Petrogrado e Moscou viram sua população reduzir-se pela metade). A fome de 1921 transformou-se numa das maiores tragédias da Rússia moderna - milhões pereceram.
Politicamente, os bolcheviques iniciaram a luta final contra outras facções da Esquerda (melcheviques, anarquistas e social-revolucionários), terminando por se transformarem no único partido legalizado do país. Durante o X Congresso do partido, em 1921, adotaram uma resolução ainda mais drástica - a proibição da existência de facções dentro do partido. Quer dizer, os bolcheviques estendiam a ditadura sobre si próprios. Enquanto a liderança esteve nas mãos de Lenin, não foram tomadas medidas repressivas contra os membros recalcitantes ou divergentes. Mar serviu de poderoso instrumento coercitivo quando Stalin empalmou a direção partidária.

A NEP e a reconstrução nacional

Depois de terem sufocado a rebelião dos marinheiro do Kronstadt, que clamavam pela derrubada dos bolcheviques e pela instauração da democracia proletária e da administração direta, os bolcheviques interpretaram corretamente a situação. Era impossível dar seguimento ao comunismo de guerra. Tornou-se necessário recuar em suas ambições de implantação imediata do comunismo. Voltar atrás não era uma medida fácil de ser tomada, e provavelmente, somente Lenin tinha condições morais e políticas para ordenar a retirada e não perder apoio dentro do partido.
Em 1921, foi criada a NEP (a Nova Política Econômica) que restabelecia as práticas capitalistas vigentes antes da Revolução. Os camponeses passariam a vender uma pequena parte da produção para o Estado a preço fixo, o restante podia ser lançado no mercado. Também permitiu-se o florescimeno de empreendimentos capitalistas na pequena indústria e no comércio. O estímulo pelo ganho pessoal foi reintroduzido e o igualitarismo teve que ceder passo à hierarquia e aos privilégios materiais.
O país passou a ter uma constituição produtiva anacrônica, medidas socialistas (estatização das empresas, minas, transportes e bancos), conviviam com medidas capitalistas (o médio produtor rural, o capitalismo urbano) e com a economia tradicional (economia de substência empregada pelos camponeses pobres). Permitindo no entanto a sobrevivência do regime dando-lhe folga necessária para a reordenação de forças. O próprio Lenin teve dificuldade m definir o estado de coisas, que ironicamente classificava: como "uma mistura de czarismo com práticas capitalistas besuntadas por um verniz soviético".
Os resultados práticos não demoraram a surtir efeito. Lentamente a produção agrícola foi sendo restabelecida; o sistema viário voltou a funcionar com maior regularidade e as pequena indústrias começaram a lançar seus produtos no mercado.

Socialismo num só país

A tragédia do bolchevismo dos anos vinte se deu na medida em que, devido ao peso das circunstâncias, tiveram que transformar-se num partido que representava a si mesmo. Suas bases sociais - o proletariado urbano, além de ser escasso numericamente, foi literalmente dizimado pela guerra civil e pela desorganização da economia ocorrida neste período. Depois de longos anos de guerra e de guerra civil, a extrema tensão em que foram submetidas as massas tornou-as apáticas. Este comportamento favoreceu a implantação da ditadura partidária mas os custos políticos foram terríveis - não só para o socialismo russo, como para a causa do socialismo internacional.
O isolamento em que o país se encontrava aprofundou-se ainda mais. A tão esperada revolução que deveria ocorrer num país desenvolvido, não ocorreu. Depois do fracasso dos spartaquistas em 1919 e dos comunistas em 1923, a Alemanha deixou de figurar como uma possível aliada. Estes fatores terminaram por fazer com que os bolcheviques fossem obrigados a alterar sua estratégia interna. A União Soviética de agora em diante deveria contar com seus próprios recursos. Evidentemente que aceitar esta nova situação era uma heresia. O socialismo era um movimento internacional, que não podia ser limitado por fronteiras, os fatos no entanto, eram uma poderosa evidência para qualquer teoria internacionalista. A União Soviética teria que lançar-se na "construção do Socialismo" enfrentando todos os fatores adversos; a falta de quadros técnicos e culturais, o imenso analfabetismo do campesinato, a baixa produtividade e a pouca qualificação de seu operariado.
Lenin morreu em janeiro de 1924 sendo sucedido por um triunvirato com plenos poderes sobre o Estado e a Organização Partidária. Dos tríunviros, (Kamenev, Zinoiev e Stalin) foi Stalin que de fato passou a usufruir de maior poder e autoridade - seu cargo era a Secretaria-Geral - responsável pela administração do Partido e pela admissão ou exclusão de seus militantes. Numa época em que a reconstrução do país ganhava cada vez mais importância, os administradores foram ocupando o lugar dos teóricos e dos agitadores - Stalin terminou sendo o veículo da nova situação. Graças a seus poucos recursos teóricos, não tinha nenhum grande compromisso em manter fidelidades ideológicas ao contrário servia-se delas para executar o seu projeto político-econômico.
Isto não evitou a polêmica entre o grupo dirigente. Ao aceitarem o "Socialismo num só país", esboçado inicialmente por Bukharin e posteriormente por Stalin - jogaram automaticamente Trostski na oposição. Ele era a expressão do ímpeto revolucionário da época heróica, que lentamente estava sendo arquivada pela nova elite dirigente. Sua formação cosmopolita e internacionalista, o indispunha com o "Socialismo num só país", que se identificavam com os ditames do aparelho administrativo-burocrático e com o nacionalismo. Em 1927, terminou sendo expulso do Partido e desterrado em Alma Alta (na Ásia) e, posteriormente, foi obrigado a exilar-se no exterior. A tese do "Socialismo num só país" pode ser esquematizada da seguinte maneira:

· Industrialização total, baseada na produção nacionalizada, dando prioridade aos meios de produção (indústria pesada).

· Coletivização progressiva da agricultura, visando à transformação última da propriedade coletiva em propriedade estatal).
Mecanização geral do trabalho, extensão do treinamento "politécnico", tendente a "equalização" entre trabalhos urbanos e rurais.

· Aumento gradual do padrão de vida desde que mantido os itens 1 e 3.

· Formação de uma moral universal do trabalho, e de uma eficiência competitiva: eliminação de todos os elementos transcendentais, psicológicos e ideológicos (Realismo Soviético).

· Preservação e fortalecimento das maquinarias estatal, partidária, militar e gerencial.

· Após haverem sido atingidas as metas previstas, transição para um sistema de distribuição do produto social de acordo com as necessidades individuais.



A segunda revolução: Stalinismo e os grandes expurgos

Nos anos trinta a União Soviética iria se lançar numa das mais formidáveis e traumatizantes aventuras dos tempos contemporâneos. A transição vertiginosa de um país agrário num país industrializado. Pela primeira vez na História esta transição não se daria pelas forças cegas da lei do mercado e sim pelo impulso estatal amparada na planificação econômica geral. Stalin enterrou definitivamente a NEP e deu início ao lançamento das bases industriais que permitiram porteriormente a URSS sair vitoriosa no conflito com a Alemanha Nazista (1941-45). No entanto sua política teve terríveis conseqüências no plano físico, moral e intelectual da nação. Acicatado pela necessidade de fazer frente a "ameaça capitalista" que cercava o país, os soviéticos lançaram-se à tarefa num ritmo sem prescedentes.
O primeiro passo dado foi a coletivização forçada a que os camponeses foram submetidos. A URDD do final dos anos vinte possuía aproximadamente de 25 milhões de pequenas propriedades, onde viviam mais de cem milhões de camponeses com suas famílias. A contradição da propriedade privada da terra e propriedade socializada foi resolvida num golpe. Criaram-se milhares de fazendas coletiva (Kolkozes) e granjas estatais (solfkozes) que deveriam iniciar uma nova etapa da história da exploração agrícola do solo. Esperava-se deste modo, fazer com que a produtividade agrícola aumentasse com a mecanização das lavouras, cumulando-se assim a renda necessária para a sustentação dos grandes projetos de eletrificação e industrialização. A resistência dos camponeses foi muito além das expectativas. Mataram seu gado, inutilizaram suas ferramentas e, em muitas regiões, rebelaram-se abertamente contra o regime . Stalin foi implacável. Mobilizaram-se inclusive forças do Exército para cumprir o projeto de coletivização e milhões de kulaks foram deportados para os campos siberianos condenados os trabalhos forçados. O impiedoso chicote de Stalin abateu-se sobre o campo e destruiu o que restava de resistência.
Na área urbana os projetos industriais cresciam como cogumelos, o padrão de vida era baixo e as dificuldades de habitação, transporte e alimentação duríssimas. Milhares de camponeses foram jogados dentro das fábricas, onde sua inabilidade, indisciplina e ignorância provocavam um espantoso índice de acidentes de trabalho. Mas o clima do país, pelo menos nos primeiros anos da década dos trinta, era de entusiasmo. A juventude lançou-se ardorosamente na construção industrial pois esperava-se em breve chegar finalmente a sociedade igualitária. Milhares de administradores, economistas, engenheiros eram formados e engajavam-se na monumental tarefa.

Em 1924 a morte de Lênin desencadeou uma luta pelo poder que colocou frente a frente os dois mais destacados dirigentes do Partido Bolchevique: Trotsky, comissário do povo para a guerra, e Stalin secretário-geral do partido.
Muito mais que uma disputa pessoal pelo controle do poder esta luta representou o confronto entre duas concepções revolucionárias: de um lado, a teoria da revolução permanente, definida por Trotsky; de outro, a teoria do socialismo num só país, advogada por Stalin. A primeira afirmava que a consolidação do socialismo na Rússia só seria possível com a simultânea expansão da revolução para países capitalistas avançados da Europa ocidental; a segunda postulava que, a despeito do fracasso da revolução no Ocidente europeu e do cerco organizado pelas potências capitalistas, era possível a construção do socialismo apenas na Rússia Soviética.

No entanto, a população ainda iria passar pôr um teste ainda mais duro - a Era do Terror - quando Stalin decidiu-se pela eliminação de todos àqueles que lhe fizeram e faziam oposição, dentro do partido.
O assassinato de Kirov, um dedicado homem de confiança de Stalin, na "capital da Revolução" (Leningrado), serviu de pretexto para que o ditador inicia-se os terríveis expurgos que espantaram o país e o mundo. Numa série de processos (entre 1936 e 1938) toda a "Velha Guarda" do partido bolchevique foi esmagada. Este terrível período ficou na memória como a Yezovchnina - o terror de Yezov chefe da Polícia Secreta (NKVD) - que também foi executado quando Bária assumiu o comando do aparelho repressivo, em 1938 .
Até hoje os historiadores procuram as causas desse terrível massacre e encontram dificuldades em encontrar sua "racionalidade"- tentaremos expor abaixo algumas de suas possíveis causas e funções:

· Com a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, sua política belicista e anti-comunista tornava mais próxima a idéia de uma invasão da URSS - alentada por outras nações capitalistas. No Oriente, o expansionismo japonês (conquista de Machúria e guerra contra a China) ameaçava o forte siberiano. Criou-se assim um clima favorável para o alarme da "Pátria socialista em perigo e arregimentação de todas as forças em torno da ditadura stalinista.

· Esta pressão externa condicionou Stalin a visualizar em seus inimigos políticos (dentro do Partido) como, objetivamente, inimigos da revolução e aliados da reação fascista . dado o despreparo do país para enfrentar um ataque conjunto alemão-japoneses, era inevitável que a oposição terminasse por questionar sua autoridade sobre o país. Ele passo a agir de forma "preventiva" antes que a oposição ganhasse vulto, explorando a insatisfação contra o Regime. As abjetas confissões a que os velhos revolucionários foram submetidos, tinham por objetivo degradá-los perante a opinião pública - ao mesmo tempo que consagravam Stalin como o único e exclusivo seguidor do Leninismo e da pureza revolucionária.

· A industrialização acelerada, feita sem nenhum amparo em referências anteriores - fez com que os inevitáveis acidentes e dificuldades, fossem apontados como sabotagem contra-revolucionária. Desta forma eximia-se a facção dirigente das inevitáveis calamidades que uma industrialização galopante traz em seu bojo. O terror passou a exercer uma função pedagógica. As falhas e a incompetência eram punidas com a prisão ou fuzilamento, fazendo com que as eficiências de formação fossem superadas pela dedicação integral ao trabalho.

· Os processos e fuzilamentos atuavam também como uma espécie de "compensação" psicológica para a massa da população. Apesar dos sofrimentos a que estavam submetidos, pelas condições do trabalho, pela escassez de víveres e de habitação, "consolovam-se" ao ver os privilegiados do regime stalinista pagar com a vida sua indisposição com a facção dirigente.

· Mas não foram apenas os quadros políticos e técnicos os atingidos pelas grandes purgas. Nem o Exército nem a polícia secreta ficaram imunes: 65% dos oficiais graduados foram executados ou presos mais de três mil tchequistas foram fuzilados. De certa forma isto foi interpretado como demonstração de fraqueza do Estado Soviético, pois ao eliminarem os quadros da nova intelligentsia militar (pincipalmente o grande estrategista, o Marechal Tukaschevski) favoreceram os preparativos blicistas de Hitler.

· Os resultados internos, no entanto, consagraram o domínio absoluto de Stalin. Uma nova equipe dirigente foi colocada a sua disposição. Duos, eficientes e cruéis, propiciaram uma centralização efetiva do poder. Deve-se observar que o stalinista típico, tinha formação cultural bem inferior a dos membros da Velha Guarda partidária. Poucos conheciam o exterior, - ficando suas raízes em solo russo. Ao contrário da elite intelectual dos primeiros tempos, fornida pela alta especulação teórica, os homens de Stalin dominavam o jargão convencional do marxismo. Sua própria extração social era distinta. Excetuando talvez Molotov e Malenkov, seus próximos emergiram da baixa classe média e do operariado - como Kalinin e Kruschev.
Foi durante seu período de pleno poder que a Ciência, as Artes e a Literatura tornaram-se adstritas à política. Nenhum ramo do conhecimento atuava à margem dos interesses partidários imediatos, tornando-se instrumento da propaganda oficialista, sob a batuta do Ministro da Cultura Zhadanov. Artistas e historiadores viviam sob a vigilância permanente e seus textos, muitas vezes, eram censurados pelo próprio Stalin (de acordo com a tradição czarista, pois Nicolau I fazia o mesmo com as rimas do grande poeta Puschkin). Mesmo assim, os alcances da instrução massiva atingiram as multidões . Os grandes clássicos da literatura tornaram-se acessíveis aos operários e camponeses. Balzac Tolstoi, Stndhal, Tchecov, Shakespeare, Homero tiveram tiragens contadas aos milhões.

· Os Planos Qüinqüenais, iniciados em 1928 proporcionaram ao país a possibilidade, não só de atingir cifras impressionantes de crescimento econômico, como serviram para derrotar a mais eficiente máquina militar posta em movimento na Europa, a Wermacht de Hitler. Milhões de rudes camponeses passaram a dominar a tecnologia e enviar seus filhos para os cursos de graduação superior.
Talvez como nenhum político de outros tempos, Stalin soube graduar a dicotomia do poder esboçada por Maquiavel, seu sucesso deve-se a habilidade com que equilibrava Temor e Amor para manter-se na crista do Estado. Por outro lado sua autocracia não deve ser vista apenas como decorrente da sua vontade pessoal e sim como resultado de um processo que se iniciou muito antes dele tornar-se o Número Um do partido.
Quando venceram os Brancos na Guerra Civil, os bolcheviques não só não estenderam a conciliação aos outros partidos de Esquerda, como decretaram sua supressão. Ao tornarem-se partido único, foi inevitável que as tensões sociais eclodissem no Politburo - o surgimento de facções foi sua decorrência lógica. Posteriormente uma das facções - a stalinista - se impos sobre as demais (trotskistas, zinovievistas, bukarinistas), culminado por fazer com que os próprios stalinistas terminassem por inclinar perante seu chefe. O execrado "culto à personalidade" e o despotismo semi-bizantino de Stalin, foi obra pois de um mecanismo político que adquiriu autonomia própria, independentemente da vontade daquele que lhe deram o impulso inicial.



Planos qüinqüenais

A ascensão de Stalin assinalou o início de uma nova política econômica, baseada no abandono da NEP e na adoção dos planos qüinqüenais. A Gosplan – comissão estatal de planejamento econômico – passou a se encarregar da planificação global da economia.
Os dois primeiros planos qüinqüenais estabeleceram dois objetivos básicos: a criação de uma indústria pesada e a coletivização da agricultura, através da qual a propriedade privada da terra foi substituída por cooperativas, os kolkhozes, por granjas estatais, os sovkhozes.
Sobre esses planos, que se estenderam de 1928 a 1938, escreveu o historiador Isaac Deutscher: “No curso desse decênio a produção de eletricidade por ano elevou-se de 6 para 40 bilhões de kWh; a produção de carvão passou de 30 para 133 milhões de toneladas; a de petróleo, de 11 para 32 milhões de toneladas; a de automóveis, de 1400 para 211 mil unidades. Antes da revolução o número de médicos era de 20 mil, em 1937 passou a 105 mil. O número de leitos de hospitais passou de 175 para 618. Em 1914, 8 bilhões de pessoas freqüentavam escolas de todos os níveis; em 1928, 12 milhões; e em 1938, 31,5 milhões. Em 1914, 112 mil pessoas estudavam em estabelecimentos de nível universitário; em 1939, 620 mil. Antes da revolução, as bibliotecas públicas possuíam 640 livros para cada 10 mil habitantes; em 1939, 8610”.
Por outro lado, os anos de 1936 a 1938 caracterizaram-se pelos “grandes expurgos”, nos quais foram afastados, expulsos ou eliminados os opositores de Stalin existentes no Partido Bolchevique e no Exército Vermelho. O ponto culminate dos grandes expurgos foram os processos políticos de Moscou, cujo resultado foi a liquidação da velha guarda bolchevique (antigos dirigentes do partido que haviam comandado a Revolução de Outubro de 1917).
Assim, na década de 1930, enquanto o mundo capitalista atravessava uma grande crise econômica a União Soviética, isolada dele, lançava as bases para a construção do “socialismo num só país”. O desenvolvimento econômico conquistado com os planos qüinqüenais dotava o país de uma infra-estrutura que teria um papel decisivo na vitória dAlemanha, cujos vermes nazi-fascistas já se formavam.

Notas

 Durante o primeiro trimestre de 1921, 93.7% dos salários dos operários e dos funcionários foi paga em espécie. A produção da grande indústria caiu de 100 em 1913 para 12.8% em 1920, a da pequena indústria para 44.1%, a da indústria têxtil para 5% e a da indústria do aço em 4%.

 As 25 milhões de pequenas empresas agrícolas fundiram-se em 240 mil cooperativas e 4 mil granjas estatais.

 Das 60 milhões de cabeças de gado existentes em 1928 restaram 33 milhões em 1933. Outras 82 milhões de cabeças de animais diversas foram mortas pelos kulaks.

 Os principais dirigentes foram executados em três grandes processos: Zinoviev e Kamenev em 1936, Radeck e Pyatakov em 1937, Bukharibe seu grupo em 1938.

 Os expurgos no Exército atingiram 3 dos 5 marechais, 14 dos 16 comandantes de exército de I e II classe, 8 dos 8 almirantes, etc, dos 783 altos oficiais e comissários militares 528 foram presos ou fuzilados. (a partir de junho de 1937). A NKVD foi depurada em março de 1937.

 O crescimento industrial, em torno dos 5 a 8% nos anos da NEP, saltou para 20 a 23.7% após o Plano Qüinqüenal que entrou em vigor a partir de 1º fevereiro de 1930. Nesta mesma década mais de milhão de técnicos, engenheiros, administradores e médios foram formados.

Conclusões

A Revolução Russa de 1917 já completou mais de sessenta anos e faz um quarto de século do falecimento de Stalin - no entanto, continua a polêmica não só sobre sua validez como também sobre o caráter atual do regime sócio-político da União Soviética.
Para muitos historiadores e marxistas do ocidente, a Revolução Russa sofreu um processo de "reversão". Paulatinamente, os valores que a moldaram que deram impulso à grande transformação social e político porque o país passou em 1917, foram sendo arquivados. O peso do passado bárbaro e rude do país foi lentamente penetrando nas esferas do poder e no modo de agir e pensar dos dirigentes - transformando os revolucionários numa nova classe de opressores: numa burguesia de Estado, como classifica Charles Bettelheim. Outros, como Deutscher, E. H. Crr e mesmo Trostski, consideraram que Stalin, mesmo utilizando-se de métodos bárbaros, modernizou o país. Apesar da sua violência institucionalizada, proporcionou o elevamento cultural e técnico da União Soviética colocando-a como uma superpotência. No entanto, sua política externa, privilegiando os interesses nacionais da URSS, fez com que o movimento socialista reduzisse num apêndice do casuísmo stalinista, tornando-o inóquo e inconseqüente.
Robert Conquest os contesta. Os métodos aplicados por Stalin aviltaram definitivamente o regime. Ao criar um modus operandi que impede livre circulação das idéias, privilegiando uma casta burocrática despótica que, outorga de privilégios, não cederá aos anseios de igualitarismo vindos da massa. Herbet Marcuse observa que o simples crescimento da riqueza nacional, promovido graças a tecnologia aplicada massivamente, não implica necessariamente que esta riqueza deva ser distribuída igualitariamente. O próprio desenvolvimento tecnológico pode aumentar com maior eficiência o grau de controle e coerção sobre a população.
Mas coma definir o sistema soviético? Nos primeiros tempos da Revolução, Lenin o identificava como aproximado às formas do Capitalismo do Estado. Durante o período stalinista, foi consagrado como Socialista, partindo da premissa que todos os meios de produção encontravam-se nas mãos do Estado e, como as classes haviam desaparecido, as massas controlavam a produção. Entretanto como combinar a apropriação das massas do modo de produção com a falta de liberdade interna? Esta supressão da liberdade, é alegada devido ao permanente cerco das potências capitalistas exercido em torno da URSS. Na década dos anos trinta a Alemanha nazista e o Japão imperialista. Depois da Segunda Guerra pela ameaça do potencial atômico americano. É de se supor pois, que a partir do momento que esta ameaça diminuir, haveriam condições para chegar-se à verdadeira democracia socialista.
Num livro publicado em 1957, Karl Wittfogel identifica no regime soviético uma nova forma de "Despotismo Oriental"- que, devido as condições peculiares à Rússia, a Revolução bolchevista de fato preparou uma restauração de formas primitivas de trato político classificadas como "asiáticas", sendo Stalin uma espécie de Gengis Kan do século XX.
No XX Congresso do Partido Comunista da URSS, realizado em 1956, os horrores da época Stalin foram denunciados por Kruschev - que apontou no "culto da personalidade" um desvio da linha leninista e do marxismo. Seguiu-se um movimento moderado de desestalinização, sujeito a avanços e recuos que dependem tanto da conjuntura interna como da externa. Não deixa de ser curioso dele ter sido iniciado como membros da entourage stalinista - trazendo por isso mesmo suas limitações. Ao não permitir a sobrevivência de seus opositores, Stalin terminou por fazer com que os próprios stalinistas se encarregassem de apagar seus vetígios da história do país. Seu corpo foi removido do Mausoleu de Lenin e foi enterrado nas muralhas do Kremlin numa discreta sepultura. O mesmo processo que usou contra seus adversários políticos foi aplicado contra ele. Cidades, praças e ruas com seu nome foram rebatizadas e seus escritos foram discretamente removidos das bibliotecas e dos jornais. A nova geração soviética sentiu que o stalinismo como método de direção partidária e do Estado é anacrônico em relação às forças produtivas com que o país conta atualmente. A coerção e o terror tornaram-se improdutivos, impedindo o desenvolvimento técnico e cultural geral, assim como o afloramento da criatividade, da responsabilidade e da iniciativa pessoal.
O próprio bolchevismo sofreu um processo de "reversão". O marxismo na URSS perdeu a conotação crítica e a audácia intelectual que o caracteriza. Tornou-se um jargão oficialista, obrigado a referendar todas as medidas adotadas pela equipe dirigente De certo modo isso não é novidade nos movimentos de massas e de idéias. Algo semelhante aconteceu com o Cristianismo, onde o igualitarismo plebeu dos primeiros tempos cedeu lugar à ortodoxia convencional, conservadora e intolerante, onde os militantes corajosos do cristianismo primitivo deram lugar à hierarquia aristocrática e estilista dos bispos e da corte papal, inspirada nos moldes herdados do Baixo Império Romano.
Para o "Tribunal da História" a via soviética para o Socialismo não deixou de servir a grande escola da Humanidade. Pela tentativa e pelo erro, o povo russo pagou com seu próprio sangue, com sua própria carne, a audácia em tentar por vias próprias superar as forças cegas da li do mercado. Pagaram custosamente a tentativa de implantar uma sociedade inspirada na igualdade social, contra toda a teoria marxista convencional e as adversidades que o atraso interno e a hostilidade externa causaram. Suas terríveis falhas e acertos permitiram e ainda permitem, que as futuras sociedades inspiradas nos mesmos princípios não necessitem percorrer o mesmo caminho. Como a máquina à vapor - a primeira e imperfeita engenhoca que permitiu a humanidade ampliar sua riqueza e controle sobre a Natureza - o país que hoje tenta a via socialista não necessita iniciar sua industrialização pelo engenho do dr. Watt nem estruturar-se politicamente com os métodos de Stalin.

BIBLIOGRAFIA



ARRUDA, José Jobson e PILETTI, Nelson, Toda a História, Editora Ática, SP.

MEDVEDEV, Roy. Era Inevitável a Revolução Russa. RJ. Civilização Brasileira.

CROUZET, Maurice. História Geral das Civilizações, SP, Difusão Européia do Livro. 1969.

TROTSKI, Leon. Como Fizemos a Revolução. SP, Global
SILVA, Francisco de Assis, Historia Geral moderna e contemporânea. Ed.moderna


WEBGRAFIA

1. http://www.militantehp.hpg.ig.com.br/54.htm
2. http://www.aticaeducacional.com.br/htdocs/Especiais/URSS/link1.htm
3. http://www.vestigios.hpg.ig.com.br/revolucaorussa.htm
4. http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/rev_russa.htm


 (Copiado, na íntegra, do site http://www.coladaweb.com/ )

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